Mamadas noturnas

Faz mais de 30 dias que acordo e me deparo com essa cena:

mamadas noturnas

Depois da mamada das 22 horas, Filipe dorme direto até as 5 da manhã.

Meus olhos veem, mas eu ainda não acredito. Será real? Não estaria eu alucinando como efeito dos 16/17 meses de privação de sono? Será que cheguei ao ponto de amamentar à noite sem ver ou perceber? Por mais cética que esteja, tudo leva a crer que o grande dia chegou ou, pelo menos se aproxima, o dia com que sonha toda mãe: dia em que a cria aprende a voltar a dormir de madrugada sem o embalo do “mamá”.

Como quase todo recém-nascido, Filipe mamava a cada 2 horas logo que nasceu. Era cansativo, mas eu estava na euforia da descoberta da maternidade e já havia sido preparada por todos à minha volta de que era assim mesmo. As mães mais velhas me confortavam dizendo que por volta do terceiro mês essas mamadas começariam a espaçar e ele dormiria por mais tempo. O terceiro mês chegou e, de fato, os intervalos aumentaram para 3 horas, aproximadamente.

Tudo parecia correr conforme o roteiro até que, no quinto mês, voltei ao trabalho. As 3/4 mamadas noturnas aumentaram para 6/7. Como assim? Cansaço extremo pelas noites mal dormidas e ainda a demanda do trabalho no dia seguinte! Enquanto estava de licença não pesava tanto pois não tinha que “pensar” no dia seguinte, mas trabalhando sem dormir… desespero! Corri atrás de informação e me disseram que poderia ser uma forma de compensar o tempo da minha ausência durante o dia e que depois ele se acostumava. Ok, era lícito, de fato eu não dispunha mais de tanto tempo exclusivo pra ele então aproveitava as noites para curti-lo. Mas esse tal de acostumar não acontecia.

Disseram que podiam ser picos de crescimento e saltos de desenvolvimento, mas eles pareciam emendar uns nos outros de maneira a não me dar folga nunca.

Disseram que mamadas noturnas eram boas para ajudar a manter a produção de leite e facilitar a ordenha para estoque. Me animei, pois ordenhava duas vezes ao dia e imaginar que a mamação noturna estava me ajudando nesse processo era um consolo, mas o período de ordenha passou e isso não me animava mais.

Disseram que poderiam ser os dentes, mas nasceram todos e as 6/7 mamadas persistiam.

Disseram que quando ele começasse a jantar mamaria menos, pois não teria fome de madrugada. As jantas passaram a fazer parte da rotina e as mamadas não mudaram nada.

Disseram que podia ser sede e lá fui eu oferecer água cada vez que ele me procurava. Ele tomava, mas mamava em seguida.

Por fim, desisti de procurar explicações, desisti de ouvir o que todos tinham a dizer, especialmente as mães que contavam regozijantes que a cria dormia a noite inteira desde o terceiro mês. Sei que não fazem por mal, mas a expressão “fulano é muito bonzinho, dorme noite inteira desde os 3/4 meses” é uma tortura para as mães que não vivem essa realidade pois, por analogia, se o fulano que dorme é bonzinho, o meu que não dorme é um cruel, é um sádico que quer me ver sofrer!

Assumi o fato de que quanto maiores fossem as minhas expectativas, maiores seriam as minhas frustrações. Tinha um filho que, diferente de tantos outros, demandava a mim e meu peito por mais vezes durante a noite a fim de conseguir engatar seus ciclos de sono e afim de saciar sua necessidade afetiva. Deletei os prazos e me dispus a amamentá-lo à noite até quando fosse preciso, ainda que isso significasse amamentar ele e o bebê que está pra nascer.

Aceitar que a regulação do sono e o desmame noturno são processos não tornou a tarefa menos difícil, pois lidar com a privação do sono é sempre um desafio, mas tornou-a mais agradável. Acolhê-lo sempre que me procurava com suas mãozinhas ou ao ouvir sua voz rouca no meio da noite sussurrando “mamá”, sentir seu corpinho quente colado ao meu, sua respiração intensa me fazia amar aquele momento e pensar até quando teria aquele privilégio.

Os meses foram passando e assim, de uma semana para outra, ele parou de procurar. Pedia água, bebia e antes que eu devolvesse o copo à cômoda, ele dormia novamente, sem o peito, sem o toque, sozinho, por si mesmo, desfrutando de uma conquista que era dele, mas também era nossa. E foi bom, foi bom enquanto durou e bom ao perceber que o bebê vai, aos poucos, se tornando menino, sem pressa, com amor, no tempo dele.

Se o seu filho tem mais de 17 meses e ainda mama muitas vezes à noite não se desespere. Não há nada de errado com ele. Ele simplesmente está caminhando no tempo próprio e, na medida em que puder caminhar com ele, será produtivo para ambos.

Caso seu limite já tenha sido alcançado, sugiro as seguintes leituras:

Plano do Dr. Jay Gordon (apenas para maiores de 12 meses) https://www.facebook.com/notes/236273189730431/

Técnica da Remoção Gentil de Pantley https://www.facebook.com/notes/232887003402383/

Sobre expectativas de sono https://www.facebook.com/notes/677030655654680/

Treinamento precoce do sono https://www.facebook.com/notes/661795767178169/

Atitudes equivocadas quando uma criança acorda à noite https://www.facebook.com/notes/225020760855674/

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13 comentários sobre “Mamadas noturnas

  1. A minha filha Beatriz acabou de fazer 1 ano no dia 1 de março, e fez o caminho inverso, até os 8 meses mamava as 23:00 e dormia até as 05:00 interuptamente. Ao completar 9 meses passou a acordar cerca de 7/8 vezes pra mamar, o que me deixou confusa, ao conversar com a pediatra, ela me disse: “Não acordava antes por que não precisava, agora ela precisa, e quando não precisar mais , vai deixar, sem você nem perceber. Seu papel é estar disponível para seu bebê em mais este momento em que ela precisa de você, procure descansar de dia o máximo que puder.” Assim eu fiz, é bem exaustivo não dormir direito, e durante o dia ter pique pra dá conta das tarefas diárias, porém, todas as vezes que preciso acordar, tento lembrar, que vai passar, e eu ainda sentirei falta, então aproveito cada munutinho e raramente não me emiciono. Ser mãe é bom de mais!

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    • Cristina, já leu sobre angústia da separação? Acontece bem nessa fase de 8/9 meses e é quando os bebês começam a ser dar conta de que eles e as mães não são um ser único. Geralmente eles ficam mais plugados nessa fase. É bem difícil, mas assim como tudo, passa.
      Menina, cola nessa pediatra que com esse discurso de apoio ao apego tá difícil de achar!

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      • Já li sim. E me ajudou muito a compreender meu bebê, e a ajuda-la a viver essas etapas sem estresse e com muito amor. A pediatra é uma senhora, nada carismática, mais extremamente profissional, e sensível as necessidades da criança, e um bom exemplo que no SUS a ótimos profissionais.

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      • Oh glória! Pediatra do SUS atualizada!!!! É pra comemorar e reforçar que sim, no serviço público tem muita gente competente e comprometida com a assistência de qualidade!
        Sobre as mamadas noturnas, o que me salvou aqui foi cama compartilhada e amamentar deitada. Sem isso acho que teria sucumbido. Força pra vc e pra sua pequena!

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  2. Ei, Ívina. Que relato bacana! Tenho uma bebê de 5 meses e tenho tentado ler mais sobre as questões do sono. Ela acordava 1 vez na madrugada, agora, tem acordado duas. Esse despertar ainda não me afeta muito porque ainda estou de licença… O que me preocupa mais é que ela chora muuuuuito pra dormir. Além de doer o coração, às vezes, torna-se bem cansativo…. E frustrante por não conseguir ajudá-la. Vc leu algo sobre esse aspecto do sono dos bebês? Vou olhar os links que vc postou. Parabéns pela iniciativa. Grande abraço. Fernanda

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    • Oi Fernanda, como são as sonecas diurnas da sua filha? Em alguns casos, a má qualidade ou a pouca duração das sonecas diurnas provoca o que se chama de “efeito vulcão” na hora de dormir à noite. É como se o bebê estivesse tão exausto que, apesar do sono, não consegue dormir.

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      • Entao… O choro eh em qualquer horario do sono… Durante o dia, tb tenho dificuldade pra fazer dormir. Eh sempre ninando. Aí na hora de colocar no berço, sao varias tentativas porque costuma acordar! As sonecas diurnas raramente duram mais q 30 minutos. Raras as vezes q durou 1 hora ou mesmo 2 horas…

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      • Então Fernanda, pode ser sim efeito vulcânico, como as sonecas são curtas, ela não deve estar dormindo o suficiente, o que torna ainda mais difícil a próxima soneca ou sono noturno. Tem uma página no Facebook chamada “Soluções para noites sem choro” com material muito bom que poderia te ajudar a identificar melhor o que pode ser feito pra melhorar a qualidade de sono do seu bebê e a sua qualidade de vida. É possível acessar mesmo sem ter um perfil no Face. Segue o link com o mapa dos textos elencados por assunto. Dê uma olhada:
        https://www.facebook.com/notes/solu%C3%A7%C3%B5es-para-noites-sem-choro/mapa-de-textos-da-p%C3%A1gina/825615347462876
        Com Filipe o que percebi é que as sonecas no berço ou na cama não duravam quase nada, mas mantê-lo no colo estendia bastante esses momentos. Contei com três pares de braços à mais pra manter essas sonecas no colo: meus pais e meu esposo e, quando estava sozinha, ele dormia no sling, colado em mim. Depois de um tempo (meses), a impressão que tivemos foi a de que os horários das sonecas já estavam estabelecidos, e o colo não era mais tão essencial para manter o sono. Já o sono da noite demandou o sling por mais tempo. Sempre que o peito não era suficiente para embalar, eu o colocava no sling e caminhava/dançava pela casa até ele adormecer. Devo ter feito isso até uns 10/11 meses, mas era menos desgastante que aquela luta pra ele dormir. Espero que os links te ajudem de alguma forma.

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  3. Nossa… estou até procurando tempo para ler os post.eu que bem sei o que e acordar as madrugadas para amamentar foi uma pequena atrás da outra,na verdade tem muito tempo que não sei o que é dormir a noite inteira.Ana luíza de 1ano e 6 meses e Ana Júlia de apenas 50 dias.

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    • Leandra, fico imaginando como deve estar sua rotina. E também refletindo sobre essa questão do sono. Há quem pense que desmame noturno é sinonimo de dormir a noite inteira e não é bem assim. Ana Luísa desmamou a meses e continua acordando à noite não é? Filipe também parou de mamar à noite e continua acordando e pedindo água.
      Lidar com essas expectativas em relação ao sono é um grande desafio.
      Força pra vocês!

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