Faltam 30 dias para 2 aninhos e hoje eu lembrei da dor do parto…

Hoje são 29 de junho e me peguei pensando no quanto essa jornada de gestação, parto e maternagem me transformou. Daqui a 30 dias comemoraremos 2 anos da chegada de Filipe e, como no ano passado, a data merece uma contagem regressiva!

Começo lembrando que há mais ou menos dois anos atrás eu senti as primeiras contrações da minha vida. Não era trabalho de parto, eram contrações de treinamento que começaram quatro semanas antes do parto em si.

Paralisei, gelei, tremi, não consegui respirar e tive medo, muuuuito medo!

Eu havia passado a gestação inteira me preparando para o parto. Li compulsivamente, frequentei grupos de apoio, assisti a vídeos e mais vídeos, conversei com mulheres que já tinham parido, mas a bendita dor me azucrinava. Afinal de contas, que dor era essa?

Eu chegava aos 30 anos sem nunca ter sentido uma dor de dente, uma cólica renal ou qualquer dor mais forte do que levar uma pancada no dedinho do pé durante um inverno mineiro. Eu sequer sabia qual era a minha reação diante de uma dor forte, porque simplesmente nunca tinha sentido uma.

A sensação era de que estava prestes a me lançar num abismo profundo e isso era aterrorizante…

mergulho

Foto de BlancoRios Foto em Forte de Monserrat – Salvador/BA

Preparar-se para o desconhecido é algo extremamente difícil! Planejei respirar, vocalizar, mentalizar o objetivo final, enfim, racionalizai cada detalhe, mas na primeiríssima contração brequei, congelei e tive pavor. Não consegui me mover, meu marido custou a me levantar da cama e fiquei em pânico. Se na primeira eu não dava conta, como aguentaria o trabalho de parto inteiro? E que duro era constatar isso às 37 semanas de gestação!!!!

Foram 4 dias com contrações espaçadas e esporádicas e medo, muito medo. Até que naquela semana me encontrei com minha doula, Ana Boulhosa e aí abro um parêntesis, doula é coisa do alto!!!! Elas sabem o caminho, conhecem o processo e tem a capacidade de te fazer enxergar tudo de uma maneira diferente. Uma hora de conversa, muito acolhimento e uma reflexão sobre o ciclo no qual eu entrava: medo – tensão – dor – mais medo…

Quando a contração vinha e eu a temia, tensionava meu corpo, fechava a pelves ao invés de abrí-la, lutava contra ela e isso fazia doer ainda mais. Com mais dor, a próxima contração era esperada com ainda mais medo e o ciclo continuava, cada vez mais forte.

Com a minha doula aprendi que a contração era como uma onda, que vinha pequena, ia crescendo até atingir seu ápice e depois diminuia. E que entre as contrações era possível relaxar, respirar e descansar.

Com a minha doula aprendi a buscar na minha mente um lugar calmo e tranquilo onde pudesse repousar após as contrações e me preparar para a próxima.

Com a minha doula aprendi que era preciso desejar a contração ao invés de temê-la, pois cada contração a mais era uma menos entre eu e meu bebê.

Com a minha doula aprendi a vocalizar em tons de OOOOO ou UUUUUU, abrindo e soltando bem meu maxilar e sentindo minha pelves relaxar e abrir de maneira simultânea à vocalização.

Foi depois desse encontro que aprendi a reagir às contrações, a aceitá-las e até a gostar delas. E foram 4 longas semanas de contrações de treinamento. Treinando meu corpo para o parto e minha mente para a dor.

Quando finalmente o trabalho de parto começou pra valer, no dia em que completava 41 semanas de gestação, experimentei a dor de verdade. Ela era enorme, intensa e profunda. Me fazia ter a sensação de que meu corpo se partia, mas não era nem um pouco parecida com a dor pavorosa que havia projetado no princípio.

Aceitei, desejei, me abri, tive medo, mergulhei e o abismo era fundo, muito fundo.

Quando achei que não podia mais lidar com aquilo, quando desejei com toda a alma que tudo acabasse e quis desistir encontrei os olhos de Ana. Eles continuavam calmos e serenos e me fitavam com aquela tranquilidade de sempre.

Com firmeza e amor ela me lembrou do processo, do objetivo da dor, da respiração e do relaxamento e assim o abismo foi ficando cada vez mais raso, até não existir mais, até me abrir por completo e receber a melhor recompensa possível: meu filho em meus braços!

Quando temos o privilégio de viver a dor do parto com amparo e respeito, com apoio e segurança ofertados pela equipe assistente, a dor termina com o nascimento do bebê. A dor que permanece gravada em tantas mulheres não costuma ser do parto em si, mas da violência a que foram submetidas.

A dor existe sim e não é pequena, mas é dor de vida e não de morte e é essa vida que celebramos nos últimos 23 meses: Filipe!

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