Sentando para o parto normal

Na semana passada, num congresso no Rio, um médico disse que é ‘humilhante’ para um obstetra sentar no chão para atender um parto.  Ele alegou que não estudou tantos anos para ficar no chão.

A declaração causa perplexidade e me leva a pensar no que faz um profissional considerar-se tão superior a ponto de achar que sentar-se no chão o rebaixaria? Talvez sejamos nós, sociedade, responsáveis por esse tipo de insanidade, assim como de juízes que não aceitam ser interpelados em blits de trânsito ou perderem voo por estarem atrasados. De alguma forma atribuímos a algumas profissões um status diferenciado, de valoração acima de qualquer coisa e, para sujeitos sem o mínimo de formação voltada para o bem comum, esse status pode produzir a sensação de semi-deuses.

Por que será que uma professora de educação infantil, mesmo pós-graduada, não se sente diminuída ou humilhada em passar a maior parte do seu expediente de trabalho abaixada ou sentada no chão? Seria ela intelectualmente menos competente ou com uma carreira acadêmica menos intensa que a de um médico, um advogado ou qualquer profissional que seja?

Tratando especificamente do obstetra, a fala do médico no congresso é ilustrativa do modelo de assistência obstétrica praticado no Brasil, centrado no médico e não na paciente. Para o médico é mais cômodo colocar a paciente deitada em posição ginecológica, pois seu campo de visão é favorecido e a posição dele fica mais ergonômica. Para o médico é melhor induzir o trabalho de parto com ocitocina sintética, pois acelera o processo e economiza seu tempo. Para o médico é melhor uma cesariana agendada, que lhe dá uma segurança maior em termos de planejamento de atendimento e, por que não dizer, financeiro.

Humanizar o nascimento significa voltar o foco do atendimento para a mulher, que é o centro do processo. Todas as perguntas são então revertidas para o bem-estar dela. Para a mulher é melhor ter liberdade para adotar a posição que bem entender durante o trabalho de parto. Para a mulher é melhor esperar pelo trabalho de parto espontâneo, que é menos dolorido e arriscado. Para a mulher é melhor parir naturalmente, no tempo dela e do bebê.

Percebe como tudo muda? O obstetra, nesse novo cenário, não faz o parto. Ele assiste ao parto conduzido pela mulher e pelo bebê e só intervém se e quando necessário. E para assistir a um parto ele adota a posição que der: sentado, agachado, deitado, de cabeça para baixo, etc. Quem se adequa é ele e não a mulher e isso não o torna, de maneira nenhuma, inferior ou humilhado, pelo contrário, o torna ético e consciente de seu papel.

Eu passei meu trabalho de parto quase inteiro ajoelhada numa piscina de plástico e a obstetra e a enfermeira obstétrica que me acompanharam quase o mesmo tempo agachadas. No expulsivo eu resolvi ficar em pé, e minha obstetra “plantou bananeira” pra poder receber Filipe. A elas minha gratidão por ter sido respeitada naquele evento que era tão meu! As fotos são de Helen Chang e de Carolina Lube, que hoje fotografa por sua empresa Kuara fotografia

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Dra. Sônia esperando agachada pela progressão do trabalho de parto. Foto de Helen Chang

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As três mulheres do meu parto agachadas na beira da piscina: Suzana Montenegro – enfermeira obstétrica, Sônia Sallenave – Obstetra e Ana Boulhosa – Doula

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Suzana esperando com a lanterna da mão: porque a mulher sabe parir e o bebê sabe nascer.

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Expressão das duas quando viram que eu estava no expulsivo e Filipe estava chegando!

A infeliz declaração do médico gerou um movimento chamado #sentandoparaopartonormal (clique e veja imagens belíssimas de profissionais que entendem que o parto é da mulher!) que repercute nas redes sociais. Para saber mais, veja reportagem da Folha

http://maternar.blogfolha.uol.com.br/2015/03/23/ativistas-fazem-campanha-para-medico-sentar-no-chao-durante-o-parto/

Pra quem se interessar, na próxima semana vem mais um post com um pouco da história da obstetrícia e como as mulheres ocidentais saíram das cadeiras de parto e das posições verticais adotadas por milenios em todas as culturas para as camas e mesas de parto.
Falarei também dos benefícios das posições verticalizadas para o parto.
Até lá!

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4 comentários sobre “Sentando para o parto normal

  1. É incrível como existe uma cultura médica tão distorcida.
    É espantoso como alguém consegue expor de maneira tão explícita essa posição…
    É necessário mesmo uma movimentação contrária a esta prática corriqueira e cada um pode fazer sua parte, como você está fazendo.
    Um beijo

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    • É mesmo espantoso Priscila e por ser tão improvável muitas mulheres não acreditam ou entendem como funciona a lógica do atendimento obstétrico brasileiro. Ainda vivem na ilusão de que o GO as deixará parir. Nesse modelo centrado no profissional de saúde, parir com dignidade é ganhar na loteria. A triste realidade da maioria é vivenciar partos roubados por desculpas sem fundamento ou partos anormais cheios de violência. Mas seguimos nos movimentando para mudar esse quadro.

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