O papel do pai como esteio emocional

Pensando sobre o dia dos pais lembrei-me de um texto maravilhoso da psicóloga argentina Laura Gutman sobe o papel do pai no período do puerpério e primeiros dois anos de vida da criança. Sim, parece uma utopia, mas quando os pais entendem sua posição nessa relação de fusão emocional entre a mãe e o bebê, o processo de vivência daquela família torna-se muito mais suave e rico.

Transcrevo abaixo um trecho do capítulo 6 de seu livro A maternidade e o encontro com a própria sombra.

pais como esteio

“Dancing family of three in orange” – 06/2013 – Gioia Albano

“O PAPEL DO PAI COMO ESTEIO EMOCIONAL

A função do pai se desenvolve em dois tempos: o primeiro diz respeito ao apoio entre 0 e 2 anos, e o segundo, à separação, depois que a criança completa 2 anos e começa a se separar emocionalmente da mãe e a construir o próprio eu.

O apoio

Nos tempos modernos, as mães e os pais tem dificuldade de compreender essa atitude. Refere-se à proteção e ao cuidado que o pai deve destinar à mãe para que ela possa desempenhar seu papel materno. Requer uma atitude muito ativa.

O que significa apoiar a maternidade?

1 – Facilitar a fusão mãe-bebê, permiti-la, defendê-la. Para estar em condições de submergir na fusão, a mãe precisa se despojar de todas as preocupações materiais e mundanas. Deve delegar todas as tarefas que não sejam imprescindíveis à sobrevivência da criança: ou seja, tudo o que não se refira a amamentar, ninar, acalmar, higienizar, alimentar e apoiar o recém-nascido. As tarefas domésticas, a atenção aos filhos maiores, a organização do lar, a administração do dinheiro, os conflitos com outras pessoas, as relações intrafamiliares, o reconhecimento do mundo e as decisões mentais devem ser atribuídos ao homem, que deve tomar decisões pertinentes para liberar a mãe do reino do terrestre. Para a mulher puérpera, esse é um período celestial, no qual sua consciência opera mais além da lógica e da causalidade. É necessário que se despoje dos pensamentos racionais e admita que atravessa uma realidade milagrosa e sem sentido aparente. A vida cotidiana continua com suas exigências e ritmos, e a tarefa do homem é justamente a de se encarregar de organizar e administrar a rotina doméstica.

2 – Defender a fusão do mundo exterior, massacrado pelos palpites, críticas e sermões que circulam acerca do que “deve ser feito”. Resguardar o ninho. Ser um intermediário, constituir-se em muralha entre o mundo interno e o mundo externo. Quase tudo o que chega do mundo exterior parece hostil à mãe, porque funciona em uma frequência muito elevada e veloz para a sutileza do recém-nascido e desequilibra o mundo emocional da mulher puérpera. As mães fusionadas precisam de um defensor aguerrido que lhes possibilite se retrair em sua função específica sem precisar se armar contra o o que está do lado de fora. Toda energia usada para se defender é energia subtraída do processo de criação do filho. Concretamente, o homem deve zelar para que a mãe e a criança disponham de silêncio e intimidade, para que circulem pela casa poucas pessoas ou apenas aquelas requeridas pela mulher, e prover o ninho só do alimento, do conforto e da tranquilidade necessários. É interessante observar como a maioria das aves age em seus ninhos: o macho entra e sai trazendo alimentos e evitando que algum intruso se aproxime, enquanto a fêmea não se afasta dele.

3 – Apoiar ativamente a introspecção, ou seja, permitir que a mãe explore a abertura de sua sombra vivenciando com liberdade e intimidade a experiência do florescimento de sua mãe interior. O apoio e o acompanhamento afetuoso permitirão à mãe que não se assuste com suas partes ocultas, que confie no processo e saiba que há uma mão estendida que poderá segurar nos momentos mais duros. Não importa se o homem compreende ou não do que se trata; importa apenas saber que algo acontece e que talvez a compreensão racional apareça mais tarde. Não há muito a compreender, é tempo de fazer a travessia.

4 – Proteger. Há muitos meios de proteger. Em nossa sociedade isso se refere principalmente aos aspectos econômicos: é o pai quem consegue, ganha, administra e organiza o dinheiro necessário para cobrir as necessidades básicas da díade mãe-filho. Liberar a mãe dessas preocupações lhe permite sustentar a fusão e a maternidade no período inicial. O homem deve manter o espaço psíquico disponível para tomar decisões, procurar ajuda, organizar o funcionamento e resolver questões do mundo material.

5 – Aceitar e amar a mulher. Nesse período, o essencial é não questionar as decisões ou intuições  sutis da mãe, que surgem como redemoinhos incontroláveis, pois respondem a uma viagem interior na qual ela está embarcada e sobre a qual não tem controle. Portanto, não tem elementos para justificar suas sensações, uma vez que passa por uma transfiguração de sua existência e por um desdobramento indescritível de recordações, necessárias à fusão e a seu devir consciente. O pai não pode constituir-se em um inimigo das sensações ilógicas, dando conselhos, discutindo as mais íntimas decisões a respeito de como erguer o bebê, alimentá-lo ou adormecê-lo, denegrindo o processo de regressão psíquica nem impondo suas ideias sobre a educação correta do filho de ambos. Não é tempo de discussão. É tempo de aceitação e observação. É tempo de contemplação sobre como as coisas acontecem. É o Tao”

Se você, mãe, teve a oportunidade de viver esse processo sobre a “guarda e blindagem” do pai, saberá o quão importante o papel dele foi para sua tranquilidade nos primeiros dois ano de maternidade. Compartilhe o texto com futuros pais para que mais deles compreendam a importância de seu papel.

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