Parto domiciliar – o que é

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Imagem do livro Nasce um bebê naturalmente, escrito e ilustrado pela parteira mexicana Naolí Vinaver e publicado pela editora Lexema, 2015.

Acredito que em 90% das vezes que falo que Filipe nasceu de um parto domiciliar e que estou preparando o segundo, as perguntas que me fazem são, nessa ordem:
1) É seguro? E se acontecer algum imprevisto, como vocês vão fazer sozinhos?
2) E como faz pra esterilizar a casa?

Hoje começo tentando responder à primeira pergunta, que na verdade abarca outras tantas.

Acho que vale a pena explicar primeiro o que o parto domiciliar NÃO É

PARTO DOMICILIAR E PARTO HUMANIZADO NÃO SÃO SINÔNIMOS

Essa é uma confusão bem comum. Muita gente acha que parto humanizado é parto em casa, sem anestesia, sem assistência, com velas, incensos e mantras tocando. Em parte, acredito que o próprio movimento em prol da humanização do parto criou essa falsa imagem através da divulgação de vídeos de parto domiciliar quase hollywoodianos, com um roteiro incluindo o pacote descrito acima.

Parto humanizado não é um tipo de parto. É uma corrente que busca resgatar o parto como evento fisiológico, centrado na figura da mulher que pari e não dos profissionais de saúde que a assistem. Sim, já começamos por aí, o profissional de saúde que acompanha um parto num viés humanizado NÃO FAZ O PARTO, porque só quem pode parir é a mulher que gesta. Esse profissional ASSISTE AO PARTO, respeitando o processo como sendo fisiológico e só intervindo quando, de fato, existir uma necessidade real.

O parto humanizado preconiza o uso das mais recentes evidências científicas em favor da segurança da mulher e do bebê. Dessa forma, muitas intervenções rotineiras como colocar a mulher em posições horizontais, usar o “sorinho” para acelerar o processo, dizer quando e como fazer força na hora do nascimento, fazer o “corte para o bebê sair” (episiotomia), apertar a barriga da mulher para ajudar o bebê a descer (manobra de kristeller), aplicar analgesia em grandes doses reduzindo ou impedindo totalmente a mobilidade da mulher, raspagem de pelos, jejum absoluto durante o trabalho de parto, separação da mãe e do bebê após o nascimento entre outras coisas, não são praticadas uma vez que as evidências mostram que não há nenhum ou há pouco benefício para a gestante e para o bebê, especialmente se dosados os riscos que cada intervenção acrescenta ao processo.

Um outro pilar do parto humanizado é o respeito ao protagonismo feminino permitindo à parturiente que conduza o processo participando das decisões que são tomadas de maneira informada, escolhendo as posições que forem mais favoráveis e respeitando o tempo daquele parto, enquanto ela e o bebê estiverem bem.

Esse assunto vale um post só dele, mas, em linhas gerais, todo nascimento deveria ser assistido de maneira humanizada, fosse ele pela via necessária (vaginal ou cirúrgica), com ou sem anestesia, no hospital, na casa de parto ou em casa.

Resumindo, todo parto domiciliar deve ser humanizado, mas nem todo parto humanizado precisa ser domiciliar.

PARTO DOMICILIAR NÃO É PARTO DESASSISTIDO NEM COM PARTEIRA TRADICIONAL

Parto domiciliar diz respeito à escolha do local do nascimento e não à assistência prestada. A segurança do parto domiciliar é confirmada para os partos assistidos por profissionais habilitados: ginecologistas obstetras, obstetrizes e/ou enfermeiras obstetras, ou seja, profissionais com capacitação para acompanhar um parto em casa e lidar com as possíveis intercorrências que ele, como qualquer outro parto, pode apresentar.

PARTO DOMICILIAR NÃO É SINÔNIMO DE PARTO NA ÁGUA, INCENSO, VELAS E MANTRAS

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Imagem do livro Hello Baby, escrito por Jenni Overend e belissimamente ilustrado por Julie Vivas. Publicado por Frances Lincoln

Esses adicionais dizem respeito à escolha de cada família. Um parto domiciliar pode acontecer sem que a mulher trisque na água, seja ela de uma piscina ou do chuveiro. O uso da água tem uma função: auxiliar na redução da dor promovida pelas contrações. Contudo, existem outros métodos não farmacológicos como massagens, deambulação (movimentação livre), bolas, etc.

Há quem goste de incensos, há quem não tolere (eu por exemplo).

Há quem queira uma iluminação menos direta e, para isso, lance mão de velas. Há quem prefira apagar as luzes e deixar a luz de outro cômodo acesa. Há quem viva um parto domiciliar diurno e isso não fará a menor diferença ou quem use as velas com caráter espiritual.

Há quem queria música tocando pra ajudar a relaxar e há quem curta o absoluto silêncio. Enfim, é a gosto do freguês.

Mais uma vez, parto domiciliar diz respeito ao local do nascimento!

PARTO DOMICILIAR É SEGURO?

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Imagem do livro Nasce um bebê naturalmente, escrito e ilustrado pela parteira mexicana Naolí Vinaver e publicado pela editora Lexema, 2015.

Essa é talvez a pergunta mais importante de todas, pois está relacionada a um assunto que todo pai se interessa: a segurança oferecida para a chegada do próprio filho.

É importante ressaltar que todo parto é um evento de risco. Não existe 100% de segurança em nenhum parto exatamente por ser um processo fisiológico cujos acontecimentos são, em boa parte, da ordem do inesperado. A falsa crença de que uma cesariana é mais segura que um parto vaginal está sendo, aos poucos, desmascarada pois cesariana é uma cirurgia de grande porte e, como tal, com índices de risco que devem ser dosados em relação às demais alternativas. Cesaria é uma bênção para salvar vidas e não pra ser feita de forma rotineira.

Mas, voltando ao parto domiciliar, não é qualquer gestante que pode parir em casa. É preciso respeitar algumas condições de segurança, entre elas:

  • gestação de risco habitual ou de baixo risco sem intercorrências que demandem uma assistência hospitalar pré-identificada. Isso é verificado durante o pré-natal;
  • assistência de profissional habilitado (ginecologistas obstetras, obstetrizes e/ou enfermeiras obstetras) com especialização para atender às demandas de um parto domiciliar;
  • plano de remoção bem amarrado para o caso de necessidade de transferência intra-parto. É importante definir o hospital e levar em consideração a distância até ele.

Não, não é preciso ter uma ambulância estacionada na porta de casa. Os eventos que demandam remoção intra-parto são, em sua maioria, identificados pela equipe assistente em tempo de se providenciar a transferência. Para tanto, essa equipe leva em conta, inclusive, as condições do trânsito no horário.

Enfim, parto domiciliar bem assistido é seguro e deveria ser uma opção da família. No Brasil já existe assistência ao parto domiciliar pelo SUS, numa iniciativa pioneira do Hospital Sofia Feldman em Belo Horizonte. Em países como Holanda e Inglaterra isso já é realidade há muito tempo.

No próximo post falo um pouco sobre os motivos que levaram a minha família a optar por um parto domiciliar e também sobre como preparar a casa para o parto.

Até lá, deixe suas dúvidas e comentários no blog. Seu retorno é muito importante para o aprofundamento dos temas aqui abordados.

Para saber mais sobre segurança do parto domiciliar sugiro a leitura dos textos abaixo disponíveis no blog da pesquisadora e médica obstetra Melania Amorim:

Parto Domiciliar: direito reprodutivo e evidências

O mito do parto hospitalar mais seguro para gestações de baixo risco

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