Ao meu amigo pediatra 

pediatra

*não encontrei os créditos da imagem

Doutor, talvez o sr. ainda não tenha se dado conta, mas na sociedade em que vivemos, amamentar é um grande desafio e, para além do meu desejo enquanto mãe, o sucesso da amamentação depende do apoio de todos, especialmente do seu.

Sou de uma geração sem referências de amamentação. Minha mãe não o fez por muito tempo, as mães das minhas amigas também não. Era a época das latinhas de leite empilhadas na TV e no imaginário coletivo.

Por isso venho te pedir que quando eu chegar ao consultório me queixando de que o bebê chora muito e que todos dizem que ele está com fome pois meu leite é fraco, olhe bem nos meus olhos e me explique que não existe leite fraco. Diga que meu leite tem exatamente o que meu bebê precisa para se desenvolver e que bebês choram por inúmeras razões que não a fome, mas, por favor, não escreva o nome da latinha na receita.

Quando eu suspeitar que meu bebê chora por cólica e que deve ser efeito do que ando comendo, pergunte-me quanto tempo ele passa nos meus braços ou nos braços de outra pessoa. Explique a teoria da exterogestação e a necessidade que o bebê tem de estar em contato com o cuidador (ao invés de no berço) para lhe conferir segurança, mas não me prescreva dietas no período da vida em que tenho mais fome ou escreva o nome da latinha na receita.

Se eu ligar desesperada dizendo que meu peito não enche mais e que meu leite deve estar secando pois o bebê que passava meia hora no peito agora solta em 5 minutos, fale sobre a crise dos três meses. Conte-me que peito não é depósito de leite, mas fábrica e que, por isso, o leite é produzido enquanto o bebê mama, não havendo necessidade das mamas ficarem cheias para que eu tenha leite. Diga que o bebê aprendeu a mamar de maneira mais eficiente e que, o que ele mamava em meia hora agora sai em 5 minutos, mas não escreva o nome da latinha na receita.

Quando eu chorar dizendo que não tenho leite, me ensine sobre livre demanda, sobre oferecer o peito tantas vezes quanto o bebê desejar, sem olhar no relógio ou sem contar as mamadas. Fale sobre os malefícios da chupeta e me encoraje a deixar o bebê se acalmar no meu seio ao invés de oferece-la, mas não escreva o nome da latinha na receita.

Quando pesar meu bebê e perceber que ele está abaixo da média na tabela ou ganhando menos peso do que o esperado, peça que eu o coloque pra mamar e me oriente em relação ao manejo: pega correta, posição nos braços, leite anterior e leite posterior, mas não coce a cabeça diante de mim como seu eu fosse incapaz de alimentar meu filho e, por favor, não escreva o nome da latinha na receita.

Se eu me queixar que o filho da vizinha toma mamadeira e dorme a noite toda, enquanto o meu mama durante a madrugada a cada duas horas, esclareça que o leite materno é de fácil digestão, mas nem por isso menos nutritivo. Conte-me também que o bebê me procura à noite não apenas pelo leite, mas pelo contato e por não ser ainda capaz de engatar seus ciclos de sono sozinho, mas não escreva o nome da latinha na receita.

Quando minha licença maternidade estiver terminando, fale-me sobre a possibilidade de ordenhar meu leite e estocar para que seja oferecido ao bebê na minha ausência. Deixe que eu decida se isso é viável ou não, mas não escreva o nome da latinha na receita.

E, por fim, se esgotadas todas as possibilidades e o conteúdo da latinha for mesmo imprescindível, me oriente a oferta-lo de maneira a manter o aleitamento materno, oferecendo a fórmula depois do peito, dando preferência ao copo ao invés da mamadeira (quando possível), retirando a oferta de fórmula quando a introdução alimentar se estabelecer ao invés de retirar as mamadas ao seio.

Sabe, as pessoas ao meu redor não me ajudam muito. As vozes do discurso do “pouco leite”, “leite fraco”, “ofereça mingau”, “dê chupeta”, “dê chá” e tantas outras informações tentam me sufocar, mas sua voz como profissional de saúde pode fazer a diferença no sucesso da amamentação. Olhe nos meus olhos, me encoraje, me apoie, mas não escreva o nome da latinha na receita sem me dar a chance de tentar.

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