Amamentar não é um ato de amor

amamentação e mamadeira 1

Ok, ok. A frase é forte e talvez até extremada, mas é necessária para que as pessoas parem de uma vez por todas a associar amamentação exclusivamente a um ato de amor ou à maternidade perfeita pelo simples fato disso não ser verdade! Se assim fosse, as mães que não amamentam ou não amamentaram não amam seus filhos?

É claro que existem mães que não aceitam seus filhos e não demonstram amor ou qualquer tipo de cuidado por eles, mas são exceções e algumas delas, inclusive, amamentam.

Amamentar pode, também, expressar amor, mas não se resume a isso. Amamentar está ligado à nutrição, à prevenção de doenças tanto do bebê quanto da mãe. É resultado de um aprendizado e não, não é automático e muito menos fácil. Não na nossa cultura do “não amamentar”. Não temos parâmetro ou exemplo em quem nos espelhar. Pergunte à sua mãe ou às tias. Boa parte delas vai relatar uma história de não amamentação ou de amamentação com sofrimento.

Minha mãe mesmo ficou admirada por eu ter passado o início da amamentação de Filipe sem uma rachadura nos mamilos ou sem que os peitos empedrassem porque na experiência dela e de todas as mulheres de sua convivência, amamentar era sinônimo de dor nos primeiros dias. Além disso, as minhas escolhas de não oferecer chupeta e mamadeira, de aguardar os 6 meses para introduzir alimentos, de não dar água, sucos ou chás até lá foram descortinando pra ela e pra mim as razões de meu irmão e eu termos “desmamado” antes dos 10 meses. Por mais que ela apoiasse a amamentação, ela não tinha conhecimento para me ajudar nessa tarefa.

Para amamentar não basta apenas desejar ou sonhar. É preciso informação e orientação de qualidade e muito, muito apoio pois em vários casos, a informação sozinha não será suficiente. Haverá necessidade de ajustes, de correção de pega e isso se faz por profissionais devidamente habilitados.

Levante a mão aí quem teve a sorte de ser orientada em relação à amamentação pelo obstetra do pré-natal. Não, ele nunca mencionou o assunto? Bem-vinda ao grupo da maioria.

E o pediatra que constatou que o bebê não estava ganhando peso na medida esperada? Ele te orientou em relação ao manejo da amamentação? Te explicou que o bebê tem que mamar em livre demanda, que tem que mamar o leite anterior e o posterior? Corrigiu a pega? Avaliou o freio da língua? Ou ele só prescreveu o leite em pó?

Dentre os poucos profissionais que orientam em relação à amamentação estão as enfermeiras que, nos dias em que a mãe permanece na maternidade, auxiliam e ensinam o manejo correto. Mas são poucos dias para dar conta de uma imensidão de possibilidades. As mulheres ficam de 2 a 4 dias internadas e, nesse período, é bem provável que o leite não tenha descido ainda.

Os desafios aumentam quando essa mãe sem informação e sem apoio chega em casa e se depara com um bebê que ainda está aprendendo a mamar, com o tempo em que o leite demora pra descer, com a apojadura e o risco de ingurgitamento e mastite, com o choro do recém nascido que é atribuído à qualidade ou quantidade de leite, com o formato dos mamilos e mais um monte de mitos em torno da lactação.

E junto com os mitos vem a prescrição da fórmula salvadora, a força da indústria, a falta de apoio da família e essa mulher sucumbe com um enorme sentimento de frustração porque, no imaginário coletivo, amamentar é amar e, se ela não conseguiu, o amor dela é menor.

Precisamos dar um basta nisso e lutar por mais informação por parte dos profissionais que assistem a gestante e a puérpera, por campanhas públicas de amamentação que não se limitem a uma imagem bonita de mãe amamentando, mas que divulguem onde e como a mulher que deseja amamentar pode conseguir orientação e apoio, por derrubar os mitos em torno do assunto.

Quer mesmo amamentar? Informe-se e procure ajuda especializada. Bancos de leite oferecem orientação quanto ao manejo e existem boas consultoras em amamentação (cuidado porque tem de tudo nesse mercado, inclusive consultora formada com 10 horinhas de curso).

E se, depois de toda assistência, ainda não for possível continuar porque sim, existem poucos, mas existem casos em que a amamentação como um todo ou a amamentação exclusiva não é possível, não se frustre ou se angustie. Seu amor continuará o mesmo. A frustração pode ser substituída pelo pesar, mas nunca pela culpa. Sim, pesar, pois o leite em pó nunca será igual ao leite materno, mas isso não tem nada a ver com amor…

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s