Introdução alimentar – por onde começar?

Ótimo, tudo pronto para começar a introdução alimentar. Seu bebê já senta sem apoio, diminuiu ou não tem o reflexo de protrusão da língua, tem mais de seis meses e você está tranquila em relação à principal fonte de nutrição dele: leite materno e/ou fórmula.

E agora, começa por onde? O que oferecer primeiro? Fruta, legume, proteína, verdura, tudo junto… a consulta com o pediatra rende um cardápio tão ou mais elaborado que o dos vigilantes do peso. Você sai do consultório perdidinha com aquela lista de recomendações na mão, passa horas na internet procurando receitas mirabolantes de papinhas, uma manhã inteira na cozinha preparando e o amado bebê prova a primeira colher e cospe o resto fora!

E agora? Rejeitou o almoço. Posso dar o resto na janta? Amanhã tento de novo tudo igual? Quantas vinte vezes preciso oferecer o mesmo alimento pra ele se acostumar?

E assim, o processo que deveria ser natural e prazeroso (para mãe e bebê) torna-se um calvário, uma montanha de expectativas e consequentes frustrações.

Gosto muito, mas muito mesmo da abordagem do pediatra espanhol Carlos González sobre o assunto quando diz que essas orientações tão precisas sobre a ordem e a quantidade de cada alimento a ser oferecido aos bebês tratam-se de uma ciência da ficção, pois não há estudos científicos que comprovem que “começar com as frutas e só depois introduzir os cereais seja melhor que o contrário”.

Se a introdução alimentar é entendida como uma oportunidade de apresentar ao bebê novos sabores e texturas além do leite materno/fórmula, não faz muita diferença a ordem dessa apresentação ou a frequência. Essas são questões individuais que deverão levar em conta os hábitos alimentares daquela família e, é claro, a aceitação de cada bebê.

Todavia, algumas recomendações são consenso por terem embasamento científico:

  • glúten – introduzir em pequenas quantidades e observar pois se o bebê for celíaco e ingerir uma quantidade grande de glúten de uma só vez pode sofrer reação grave;
  • leite de vaca e derivados / frutos do mar / soja – após os 12 meses porque as reações de bebês alérgicos à esses alimentos quando muito novinhos tendem a ser mais perigosas;
  • mel – aguardar os dois anos pelo risco de contaminação por toxina botulínica e sistema imunológico ainda em desenvolvimento para lidar com esse tipo de infecção;
  • sal – evitar nas preparações até os 12 meses ou usar em quantidades bem pequenas. Os rins do bebê também estão em desenvolvimento e não ajuda sobrecarregá-los. Lembre-se de que alimentos processados levam sódio em suas preparações com outros nomes (glutamato, sacarina, ciclamato, caseinato, por exemplo);
  • açúcar – evitar nas preparações até os 24 meses ou usar em quantidades bem pequenas. Assim como o sódio, alimentos processados levam açúcar em suas preparações com outros nomes (sacarose, frutose, maltodextrina, dextrose, xarope de milho, por exemplo);
  • oleaginosas (castanha pará, nozes, amêndoas, amendoim, etc) – por terem maior potencial alérgeno, sua oferta também deve ser retardada.
  • alimentos ultraprocessados – (embutidos, biscoitos recheados, enlatados, etc) – evitar pelas altas concentrações de sódio, açúcar, corantes e demais aditivos.

Agora veja, são recomendações. Cada família deve ponderar e assumir suas escolhas e as possíveis consequências de cada uma. Você pode dar leite de vaca ao seu bebê de 10 meses a não acontecer nada por ele não ser alérgico à proteína do leite de vaca. O que não significa que o resultado será o mesmo com outros bebês. Você pode dar mel antes dos 24 meses e não acontecer nada, mas também pode ter o asar de, por aquele mel, o bebê sofrer intoxicação por toxina botulínica, o que, em bebês menores, é gravíssimo.

Eu optei por seguir a maioria dessas recomendações, mas dei iogurte caseiro pra Filipe quando ele tinha 10 meses. Assumi o risco e ponto. Uma escolha.

Separamos a comida do João antes de acrescentar o sal, mas não significa que se, por uma necessidade ou esquecimento, ele comer a comida com sal tudo estará perdido.

Eu ainda não adoço nada pra Filipe (2 anos e 9 meses). Ele toma limonada, mingau, come frutas e o que for sem adição de açúcar, mas uso açúcar em preparações como bolos. Sempre diminuo pela metade o indicado na receita e na maioria das vezes substituo por demerara. Mas esse é um hábito da minha família. Temos diminuído o consumo de açúcar nos últimos anos e percebido que o paladar se adequa a ponto de não sentirmos mais falta.

Dadas essas recomendações, a escolha de começar primeiro com fruta, com legume, com cereal, com proteína ou com tudo ao mesmo tempo será  pessoal. Já ouvi de profissionais dizerem que o prato do bebê tem que ter 5 cores para poder substituir uma mamada. Oi, lembra dos princípios? Quem disse que é preciso substituir a mamada quando ela, ou a fórmula ainda são a principal fonte de nutrição do bebê?

Eu acho super válido que o profissional assistente, geralmente o pediatra, oriente a família a respeito de uma alimentação balanceada, com refeições principais contendo proteína, leguminosas, legumes, tubérculos, verduras. Muitas pessoas ainda não tem acesso à esse tipo de informação. Mas daí a especificar um cardápio detalhado para um bebê que está em INTRODUÇÃO alimentar me parece um exagero. É como querer que um bebê de 6 meses coma de garfo e faca! Isso vai acontecer em algum momento da vida dele, mas não aos 6 meses!

Muitos também recomendam oferecer apenas um alimento novo a cada dois dias para, no caso de uma alergia alimentar, poder identificar a que alimento a criança reagiu. Fiz isso com Filipe por causa do histórico de alergia a ovo e a mamão, mas escolhi fazer diferente com João. Ofereci mais de um alimento por dia pensando que, se houvesse reação, suspenderia tudo e começaria do zero, com um alimento por vez. Entre 3 e 5% dos bebês apresentam algum tipo de alergia. Eu preferi pagar pra ver se João estaria entre esses, mas mais uma vez: é uma questão de escolha e de assumir as consequências.

Vale dizer ainda que a introdução alimentar é uma excelente oportunidade para melhorar os hábitos alimentares da família toda. Não dá pra ficar dando comidinha natureba pra cria e comendo tranqueira por muito tempo. Eles tendem a querer o que está no nosso prato ou na nossa mão. Que tal começar a descascar mais e a desembrulhar menos? É o primeiro passo para uma mudança de padrões.

Quando enxergamos a introdução alimentar com mais naturalidade, sem tantas regras e formatações, as nossas expectativas diminuem e conseguimos desfrutar de um momento tão rico junto com as crias. Vê-los reagir aos novos sabores, texturas, temperaturas é uma delícia. Respeitar suas preferências, entender que são capazes de demonstrar saciedade, manter o aleitamento/fórmula são posturas que demandam de nós mais empatia, mas criam com os filhos uma conexão muito especial.

E você, como tem feito ou como fez? Que impressões tem tido ou teve da introdução alimentar? Tem dúvidas? Conta pra gente nos comentários aqui do blog ou lá na página do Facebook.

Deixo com vocês uma sequência de fotos de como foram os primeiros dias de IA de João

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Primeiro alimento oferecido: manga – lanche da manhã

 

 

 

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Almoço do primeiro dia foi num restaurante. Ele provou brócolis.

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Segundo dia: melão

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e melancia pela manhã

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coxinha de frango e brócolis no almoço

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laranja à tarde

 

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Terceiro dia: brócolis, couve-flor, coxinha de frango e feijão amassado e coado

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Primeira experiência com glúten: 17 dias após a IA. Comeu macarrão com almôndegas e couve-flor

 

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2 comentários sobre “Introdução alimentar – por onde começar?

  1. Que texto fabuloso! Amo sua análise dos fatos.” Nao dá pra ficar dando comidinha natureba pra cria e ficar comendo tranqueira” eh o famoso faça o que digo, mas não faça o que faço que nunca gera bons resultados. Principalmente na criança que aprende muito mais pelo exemplo. Quando tiver meu filho, com certeza, seguirei suas orientações, pois são muito sensatas e equilibradas.

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