Comeu tudo!

filipe comendo tudo

Filipe lambendo o prato

Eita! Meninos doentes, meleca pra todo lado e muita fumacinha pra liberar as vias respiratórias, inclusive as minhas. Um desmame em curso (leia-se rotina de sono 3x mais demorada) e uma mãe em modo zumbi. No meio disso tudo uma série sobre Introdução Alimentar e um monte de reflexões que venho fazendo a respeito do tema.

Tenho sido bem didática até aqui tratando de questões muito práticas, como a manutenção do aleitamento como principal fonte de alimentação do bebê até 1 ano, quando começar, que alimentos oferecer primeiro e em que quantidades e frequência.

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Filipe experimentando ossobuco. De acompanhamento: arroz, feijão, couve e angu

Tudo isso é importante e permeia as rodas de conversa de mães que estão prestes a vivenciar essa fase, mas hoje quero trazer à reflexão um assunto ainda mais relevante na Introdução Alimentar: a relação que nossos filhos vão estabelecer com a comida a partir da nossa postura ao apresentar a eles novos alimentos.

Nós mães somos obcecadas pelo tamanho das crianças, precisamos admitir isso. Por mais que comam, nunca parece ser o suficiente e crescer, na nossa cabeça materna pirada, é o único indicativo de boa saúde. Sempre queremos que comam um pouquinho à mais e, nessa ânsia de satisfazer as nossas expectativas, forçamos as crianças a se desconectarem de sua própria capacidade de regular o apetite. Acreditamos que não são capazes de demonstrar saciedade ou escolher o que precisam comer. E esse é o primeiro passo para uma relação ruim com a comida durante toda a vida delas.

Uma vez ouvi a Fabíola Duarte, do Colher de Pau, falando sobre como a introdução alimentar pode afetar nossa relação com a comida e fiquei impressionada. Na época, Filipe estava começando a comer com talheres e fazíamos muita festa quando ele conseguia comer toda a comida do prato. Ele mesmo já havia aprendido e batia palmas vibrando e dizendo: “comeu tudo. Pababéns!”. Comecei a pensar porque tanta valorização do “comer tudo” e, até que ponto era realmente bom que ele comesse tudo.

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Filipe comendo a salada do pai

Veja, não estou fazendo apologia ao desperdício, mas, numa fase da vida em que um terceiro é quem porciona sua comida, como exigir que se coma tudo? Como é possível decifrar o tamanho da fome de outra pessoa? Você come a mesma quantidade todos os dias? É claro que não! E por que um bebê ou uma criança pequena deveria fazê-lo? Por que eles precisam comer tudo o que você acha que eles devem comer?

Deixa eu te contar uma história de família pra te ajudar a entender como isso é grave. Meu irmão foi um bebê prematuro. Nasceu pesando 1,7kg e medindo 47cm. Como todo bebê prematuro, a curva de crescimento dele sempre foi abaixo da média. Ele precisava de tempo para alcançar o desenvolvimento normal de uma criança. Nos 22 dias em que ficou na incubadora, a frase que minha mãe mais ouviu foi: ele precisa ganhar peso pra ir pra casa. Ganhar peso era uma questão de sobrevivência e ele sobreviveu, assim como esse conceito.

Na introdução alimentar, se ele comesse um pires de papinha, minha mãe queria que ele comesse um prato de sobremesa. Ele era inteligente e sabia que não cabia tanta comida assim. Por isso rejeitava. Ela insistia. Ele abria a boca e depois cuspia/soprava tudo nela. Ela se irritava e brigava com ele. Otávio tomava tanto remédio pra abrir o apetite que vivia dopado, dormindo por horas. O momento da refeição era um tormento para ambos.

Meu irmão sobreviveu, foi um típico adolescente que comia até reboco de parede e chegou à vida adulta. Ele mora sozinho desde que meus pais vieram pra Salvador acompanhar o nascimento de Filipe. Nesse período aprendeu a se virar na cozinha e como todo iniciante, erra no cálculo da quantidade de comida preparada. Sabe o que ele faz se o macarrão do dia daria pra alimentar 4 pessoas? Ele come tudo. Porque não pode sobrar, porque sempre cabe mais um pouco, porque comer, pra ele, é empanturrar-se. De onde ele tirou isso? Lá da introdução alimentar.

Não conto essa história com ares de julgamento. A relação da minha mãe com a comida também é fruto da introdução alimentar dela. Casa de muitos filhos, a comida era à vontade, mas não podia sobrar nada porque a minha avó não admitia desperdício. Porque ela não admitia desperdício? Porque passou restrição, quase fome na época da guerra mundial.

Percebem como a coisa toda é uma sequência de elos formando uma corrente de relacionamento ruim com a comida? Porque queremos que comam mais? Que comam tudo? Que aceitem só mais uma colheradinha? Que sejam bebês bolinha cheios de dobrinhas? De onde vem esses conceitos?

Acreditar que bebês e crianças pequenas são capazes de regular o apetite é um enorme desafio para pais, mães e avós que tem distúrbios alimentares (leves ou graves), mas acreditem: eles não ficam com fome. Toda criança minimamente conectada consigo é capaz de demonstrar fome e saciedade.

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pratinho com arroz, carne de sol, arrumadinho, aipim, chips de batata doce e salada com uma mãozinha querendo pegar a comida (é a de Filipe)

Qual seria então o melhor caminho? Ofereça sempre comida de qualidade, leia-se comida preparada em casa, com o mínimo de aditivos. Aquela que você sabe nomear os ingredientes e eles não tem nome de produto químico. Ofereça e respeite o apetite do bebê ou da criança. Se ele não quiser comer nada, guarde e tente novamente mais tarde. Permita que ele escolha.

Há quem diga: “mas se eu deixar ele escolher só vai querer porcarias!”. Veja, permita que ele escolha dentre opções saudáveis. Um bebê ou uma criança pequena não vai ao mercado comprar doces e biscoitos recheados. É você, adulto, quem determina o cardápio (ou deveria ser). O que defendo é o mínimo de espaço para que eles desenvolvam a autonomia. Como?

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João em um restaurante comento beterraba. No prato estão brócolis, batata baroa, vagem e cenoura.

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João comendo brócolis e no prato restos de frango, feijão e couve-flor

Vai oferecer legumes? Coloque 3 opções diante da criança e permita que ela coma aquela que desejar, por exemplo. Colocou um prato colorido e ele só quis comer o feijão e a carne? Ok, mas não deixe de colocar os legumes e verduras. Estimule, encoraje-o a experimentar novos alimentos, mas nunca obrigue-o.

 

Tenha regras, mas seja flexível. Não dá pra permitir que a criança troque o almoço por um pão. Mas dá pra incluir um pedaço de pão no almoço (há inúmeras culturas que tem esse hábito).

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João escolhendo entre laranja e melão.

Com respeito e um pouco de criatividade, a família toda pode se beneficiar da introdução alimentar de um bebê. Eles, por começarem bem essa relação com a comida e nós, pela possibilidade de rever a nossa.

 

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Filipe com roupinha de hospital comendo frango com abóbora dentre outras opções.

Observação – as legendas das imagens fazem parte da campanha #PraCegoVer. Assim você não pensa que eu estou descrevendo o óbvio. É obvio pra nós, que enxergamos, mas uma excelente forma de incluir quem não tem essa possibilidade. Participe também. Basta descrever as fotos ou imagens que você posta. Pode ser uma descrição simples ou mais detalhada. O importante é lembrar de quem depende dela para entender o que você compartilhou.

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7 comentários sobre “Comeu tudo!

  1. Adorei os dois últimos posts! Se a nossa sociedade entendesse a importância de moldar o paladar dos pequenos nessa fase… De ensiná-los não só a comer, mas também a fazer boas escolhas… Não teríamos tantos problemas relacionados à comida! E esse trabalho é de todo mundo: das famílias, das escolas, dos profissionais de saúde, da mídia (que quer nos convencer que um … vale por um bifinho!). Todos juntos por uma infância mais próxima às boas práticas alimentares!

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    • Ju, eu segurei as rédeas até Filipe fazer 2 anos. Só então comecei a liberar algumas aventuras como chocolate e iogurte grego e é impressionante como afetou o paladar dele. Nunca mais aceitou tomar um iogurte natural como antes. Fico pensando se tivesse liberado tudo na fase de formação do paladar…
      E olha que recebi reprovação de muitos. Me disseram que estava criando uma pessoa pra viver 120 anos sem desfrutar das delícias da vida.
      Difícil combater a grande indústria alimentícia, mas possível! E a família toda agradece!

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  2. Ívina, acabei de gravar o GNH dessa semana, sobre alimentação e vim aqui catar a sua série maravilhosa para colocar os links no post. Aí me deparei com esse texto e foi exatamente o que tratei no episódio. Sobre a importância de conhecermos a origem dos nossos sentimentos e angústias em relação a alimentação para evitar transferir isso para as crianças. Ótimas as suas reflexões e o exemplo do seu irmão. :*

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  3. Pingback: GNH #22 – Introdução Alimentar – Parte 1 | Gerando Novas Histórias

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