Introdução alimentar – quando começar?

Tá aí um assunto controverso até entre pediatras: quando começar a Introdução Alimentar (IA)?

Há quem indique compeçar com líquidos aos 4 meses, ou adiantar o processo porque a licença maternidade está pra terminar, ou porque o bebê tem refluxo e uma série de outras justificativas.

O fato é que introdução alimentar não é assunto consensual em muitos aspectos. Se você fizer uma pesquisa rápida na internet vai achar inúmeras publicações de médicos e leigos com justificativas para se aguardar os seis meses para iniciar a oferta de outros alimentos que não o leite materno/fórmula. Entre elas, as mais famosas são as seis razões presentadas pelo Dr. Sears:

  1. O intestino do bebê precisa estar desenvolvido;
  2. Bebês mais novos tem reflexo de protrusão da língua;
  3. O mecanismo de engolir do bebê novinho é imaturo;
  4. Bebês precisam ser capazes de sentar;
  5. Bebês novos não são capazes de mastigar;
  6. Bebês comem por imitação.

Concordo um pouco com cada uma delas, mas gosto muito de um trecho do livro do pediatra espanhol, Carlos González, Mi hijo no me come, em que ele diz:

“Dizemos que não se deve oferecer nada além do peito até os seis meses porque em um estudo científico distribuíram aleatoriamente os bebês em dois grupos. Uns tomavam só peito até os seis meses, e então começavam as papinhas (além do peito). Outros começaram com as papinhas aos quatro meses. Os que começaram com a papinha aos quatro meses não engordaram mais e nem se observou nenhuma vantagem, mas comprovou-se que tomavam menos leite materno. Todavia não se há feito nenhum estudo científico comparando a primeira papinha aos seis meses ou aos oito meses, é possível que nos próximos anos tenhamos algumas surpresas.” (tradução livre).

Dito isso, penso que, aguardar os seis meses seria apenas uma das condições para o início da IA, uma vez que até essa idade, o bebê terá oportunidade de desfrutar ao máximo dos benefícios da amamentação ou da oferta de LA, quando a primeira não for possível de maneira exclusiva.

Além dessa questão de idade, duas coisas norteiam a IA aqui em casa: a capacidade do bebê de sentar-se sem apoio e a diminuição do reflexo de protrusão da língua.

Não basta ter seis meses. Para mim é importante que o bebê seja capaz de sentar-se sem apoio para se iniciar a introdução alimentar segura. Essa é uma constatação empírica e não necessariamente científica. Observe a postura de um bebê que ainda não senta-se sem apoio. Ela é ligeiramente inclinada para frente enquanto a postura do bebê que já tem essa competência é ereta.

Já tentou se desengasgar deitado, ou sentado reclinado pra qualquer direção? Impossível né? A primeira medida que tomamos quando nos engasgamos é endireitar a coluna ao máximo e abusar de toda a musculatura torácica pra expelir o que “desceu errado”.

Agora pense num bebê que ainda não tem tônus suficiente na coluna vertebral sequer pra manter-se sentado sem apoio tendo que lidar com uma situação de engasgo. Amores, assim como pra morrer basta estar vivo, pra engasgar basta comer. O risco existe com comida em pedaços, amassada, liquidificada ou o que for. Penso que quando a musculatura da coluna alcança tônus suficiente pra sustentar o bebê sentado sozinho, a musculatura do sistema digestivo e respiratório também estará preparada para lidar melhor com a deglutição e com os possíveis episódios de engasgos.

O terceiro pré-requisito aqui de casa é um reflexo de protrusão da língua menos acentuado ou inexistente. Quando este é ainda muito forte, dar comida a um bebê, tenha ele mais de seis meses ou sente-se sem apoio, é dar murro em ponta de faca.

Explico melhor. Reflexo de protrusão da língua é um mecanismo de proteção do bebê que faz com que ele use a língua pra impedir que objetos estranhos desçam pela garganta e, comida, a princípio, é um “objeto” estranho. Por volta dos seis meses (isso significa que pode ser um pouco antes ou um pouco depois), esse reflexo diminui ou desaparece.

Então a dica é, começou a IA e o bebê cospe tudo o que tem na boca, ou faz ânsia de vômito o tempo todo, recolha tudo e espere mais uma semana. Tente de novo. Ainda tem muito reflexo? Espere mais um pouco. Isso trará mais paz ao processo ao invés de torná-lo uma batalha de colheradas e regurgitadas.

Ívina, mas e se com 7 meses ele ainda não estiver pronto? Ou com 8/9/10 meses? Lembra do post sobre os princípios? (se não leu, veja aqui) Até os 12 meses o leite materno ou a fórmula será a principal fonte de nutrição do bebê e a alimentação uma fonte complementar. Acreditar nisso lhe dará segurança para aguardar a prontidão do bebê.

Aqui, Filipe sentou-se no dia em que completou seis meses e logo começou a IA, mas só foi comer com 9 pra 10 meses. Já João sentou-se com quase sete meses e comeu como um mini-ogro no terceiro dia de IA. São pessoas, não são relógios. Respeitar o tempo do bebê é o mínimo que precisamos fazer para tornar a experiência alimentar deles prazerosa e produtiva, lembrando que isso refletirá por toda a vida deles.

Sugestão de leitura: Texto de Fabiolla Duarte – Introdução de alimentos passo a passo

Quer saber mais sobre IA? Pergunte nos comentários pra nos ajudar a construir os próximos posts.
E com seus meninos, qual foi o ritmo deles? Começaram com quantos meses?

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Descrição da imagem #PraCegoVer: Filipe com os cabelos atrapalhados, sorrindo e com o rosto todo lambuzado de comida

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Descrição da imagem #PraCegoVer: João, sentado na cadeirinha, com o rosto e a barriga lambuzados de comida.

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4 comentários sobre “Introdução alimentar – quando começar?

  1. Ótimo texto Ivina, vivemos em uma sociedade de super pressão o tempo todo, e saber esperar o tempo do bebê e nao a ansiedade dos pais é o que faz a diferença. Interessante que não sabia que até um ano o mais importante é o leite materno e não a IA, isso me ajudou muito, pois com o Théo não temos pressa nenhuma, ainda mais por ser prematuro, vamos dar mais um tempo pra ele com o peito.. Rsrsrs!!!!

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    • Isso Rafaela! A sensação é que os bebês tem prazo pra deixarem de ser bebês. Caminhar No Passo deles é um desafio.
      Sendo Théo prematuro é ainda mais importante observar outros sinais de prontidão, que não apenas a idade.

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  2. Que maravilha de texto. Não só por ser tão bem escrito, mas por ser lúcido e explicativo. Buscando há dias algo assim e só agora consigo amenizar meu coração. Meu bebê já com 9 meses e mantém o reflexo de protrusão da língua. Em lugar algum vi que poderia ser aguardado mais um pouco pra iniciar a IA. Todos, inclusive profissionais, só sabem dizer que eu devo insistir. E a insistência só servindo pra deixar a nós dois (mãe e bebê) frustrados. Vou confiar mais
    nos meus instintos e acreditar no que vejo: meu bebê tão cheinho de bochechas continua saudável só com o leite mesmo…

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    • Oi Adriana!!! Me perdoe pela demora em responder!!!! Os passos aqui andam mais lentos para as redes sociais 😄
      Espero que as coisas tenham progredido por aí em relação à IA.
      Pressão por todos os lados é o que sentimos. Manter a serenidade e respeitar o tempo de cada bebé é um.enorme desafio.

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