De mãe pra mãe

solange e ivina

1984 – Minha mãe e eu – d. Solange me carregando quando eu tinha menos de 1 ano. O olhar é de contemplação 

Ah, dia das mães. Homenagens e mais homenagens nas redes sociais, nas escolas, igrejas, na grande mídia. Todos abraçados e fazendo declarações. Coisa linda de se ver.

Mas e o dia a dia? Como é nossa relação com nossas mães? E nós, que somos mães, como tem sido ocupar esse papel de filha e mãe? Tá aí um espaço que pode ser muito construtivo ou extremamente conflituoso.

Tenho visto muitas amigas cavando abismos na relação com suas próprias mães depois que os bebês nasceram. Algumas até usando o discurso da maternagem consciente para confrontar suas mães ao mesmo tempo em que dependem delas para auxiliar nos cuidados com os bebês.

Minha mãe é muito, mas muito respeitosa em relação às minhas escolhas de maternagem, mas isso não significa que ela concorde com tudo o que eu faço. Volta e meia ouço um desabafo do tipo:

-Ai Ívina, não lembro de vocês nessa idade dando esse trabalho, respondendo, fazendo birra, gritando. Tenho medo de que Filipe fique sem limites.

E não fazíamos mesmo essas coisas porque estávamos condicionados. Se fizéssemos apanhávamos e, se um rato sabe que ao apertar um botão ele leva um choque e, por isso, deixa de apertar o bendito, uma criança de 2 anos também pode agir de maneira condicionada.

Eu tenho procurado não pautar minhas decisões pelo que minha mãe, ou a sociedade toda esperam dos meus filhos, mas pelo que eu considero verdade, pelos meus princípios.

Entretanto, as escolhas de maternagem diferentes que faço não são contestações às escolhas que ela fez. Ela fez as melhores escolhas possíveis. Fez tudo o que considerou melhor pra gente. Foi e é uma mãe muito empenhada e muito dedicada e, embora eu a tenha julgado por inúmeras vezes na minha adolescência e também depois dela, o nascimento de Filipe me permitiu ressignificar muita coisa na minha relação com ela.

Viver na pele a  intensidade da entrega física e emocional não permitiu que sobrasse espaço para julgamentos. Eu a agradeço pelo excelente trabalho realizado, eu sou o resultado dessa entrega e me considero bem criada!

Quando escolho fazer diferente, não a contradigo. Estou apenas escrevendo minha história de maternidade. A dela foi e é escrita com Otávio e Ívina. A minha eu escrevo com Filipe e João. Quero ter autonomia nesse processo e não tenho garantias de que vou acertar em tudo. Na verdade eu tenho certeza de que vou errar em muitas coisas, mas devo assumir a minha maternidade. Preciso ter clareza dos meus motivos e me virar com as consequências das minhas escolhas. Isso se chama empoderamento materno: tomo para mim a responsabilidade da decisão e assumo o que acontecer decorrente dela.

Quando eu escolho criar uma criança que não é condicionada pela chinelada ou palmada,por exemplo, vai ter birra em casa e na rua e eu estou assumindo que vai ter. É difícil assumir? Claro que é? Ninguém quer ser exposta ao julgamento da sociedade. Todas queremos alcançar o  reconhecimento de que somos boas mães. Apesar de, pessoalmente, eu entender que ter um filho que birra não me desmerece.

Imagino que seja difícil para minha mãe ver tanta “novidade” na educação dos meninos, mas também o é para mim. Eu creio que vai dar certo, estou vivendo pela fé. Não tenho como determinar lá na frente, mas preciso tentar. Precisamos, todas nós, ter direito, inclusive de errar.

Minha vantagem é que D. Solange foi extremamente questionadora e fez questão de se afirmar enquanto mãe. As discordâncias dela com minha avó eram outras: colocar ou não fumo pra curar umbigo, pingar remédio no ouvido das crianças (não façam isso em casa), ofertar mil e uma qualidades de chás medicinais, dentre outras práticas.

ivina-9841

2015 – 31 anos depois e o olhar com que ela me olha é o mesmo – Eu grávida de João abraçada à minha mãe que me olha com ternura

Minhas questões hoje são outras. Quero escrever a minha história, mas não sem ela ao meu lado. Acredito que as diferenças não nos afastam, nem tampouco invalidam os preciosos conselhos que ela pode e tem me dado. Não estamos numa disputa de quem tem razão, estamos no processo de educação daqueles que são o motivo da nossa alegria diária: meus filhos e netos dela. Somos uma família. Eu tenho a responsabilidade de decidir, ela tem a condição de, pela experiência, me nortear e como é bom tê-la ao meu lado. Eu sou a parte chata da criação, aquela que deverá dizer os nãos. Ela é puro amor para com os meninos. E eles, mais do que nós duas, são os maiores beneficiados nessa relação. Nós crescemos enquanto mães, filhas e avós (sim, ela me inspira até nisso), eles crescem em harmonia.
Meu desejo nesse pós dia das mães é que você, minha amiga leitora, seja mãe ou filha, saiba criar espaços na sua relação onde as coisas possam ser ditas em amor. Onde os egos sejam menos importantes que as crianças. Onde uma família possa se estruturar.

Feliz dia das mães pra todas nós!

Obs – as descrições das imagens são parte da campanha #PraCegoVer. Uma iniciativa de incluir deficientes visuais nas redes sociais.

20160119_083800

D. Solange com Filipe ao colo costurando a farda de soldado dele.

20150403_114019

Filipe dormindo ao colo da avó

20160306_095446

João, minha mãe e eu

 

 

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s