Ele vai se acostumar – reflexões sobre o sono dos bebês

Tem tempos que não escrevo sobre maternagem, mas hoje não resisti. Voltava do trabalho quando ouvi pelo rádio, numa coluna sobre animais de estimação, uma especialista orientando a dona de um filhote de yorkshire de dois meses a como proceder para fazê-lo dormir a noite toda.

Em resumo, um casal comprou o filhote que dorme o dia todo enquanto os donos trabalham e passa as noites querendo brincar. Foi colocado para dormir no quarto com os donos, mas acorda a cada duas horas e, por isso, estão tentando deixá-lo dormir na sala.

Orientações da especialista:

  • crie um cantinho agradável e seguro;
  • feche a porta do seu quarto;
  • ainda que o filhote chore nos primeiros dias, não dê atenção, não brinque, não traga para o seu quarto;
  • filhotes gostam de dormir junto, mas aos poucos ele vai se acostumar;
  • é só uma questão de tempo para o filhote aprender que o dia é para brincar e a noite para dormir.

Bem, eu nunca tive um filhote de cachorro na vida, mas perdi as contas de quantas vezes me deram as mesmíssimas orientações para que meus meninos dormissem a noite toda!

O tal do dormir a noite toda é pergunta garantida em qualquer conversa que se inicie com uma puérpera. A pessoa te conheceu na fila do mercado, elogiou o bebê e assim, no seco, solta a pergunta: – Já dorme a noite toda?

Também é motivo para mães se gabarem e enaltecerem a candura de seus bebês: – Ele é muito bonzinho… dorme a noite toda no próprio quarto desde o primeiro mês! – nada como uma afirmação dessas para vocês olhar seu filho como um pequeno monstro que nasceu com o objetivo declarado de te privar do sono até a adolescência. Afinal, se o dela que dorme é bonzinho, o seu, que aos 18 meses ainda acorda para mamar deve ser… ah, deixa pra lá…

Amigas, bebês NÃO são programados para dormir a noite toda. Quando acontece é exceção! Pelo contrário, bebês são projetados para acordar muitas e muitas vezes nos primeiros três meses de vida por uma questão de sobrevivência e, nos próximos trinta meses é que o padrão de sono vai se regulando.

Eu sei, é muito quando se está lá no começo. Sim, parece que a gente não vai sobreviver. São dois anos e meio em média sem dormir uma noite toda!!!!!!!!!!!!!!! É loucura, mas há vida após essa fase! Tô aqui pra contar e atestar!

Meus meninos, mesmo depois do desmame noturno, continuaram acordando na madrugada uma ou duas vezes procurando água ou apenas aconchego. Em algum momento por volta dos dois anos e meio o padrão de sono deles mudou. Passaram a adormecer sem tanta necessidade de afagos e histórias e a dormir um sono mais pesado e longo.

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O que parecia inalcançável aconteceu de maneira natural. Eles aprenderam que o dia é para brincar e a noite para dormir, na verdade eles aprenderam a dormir sem que pra isso tenha tido que deixá-los chorando no quarto até se acostumarem.

Se até o pobre do filhote de yorkshire gosta de aconchego na madrugada, o que pensar dos nossos filhotes?

E você amiga, que acabou de parir e está aí sonhando com uma noite inteira e sono, já parou pra pensar que no ventre materno não há dia ou noite, claro ou escuro? Que isso tudo é muito novo pro bebê?

Termino meu post com um convite a uma visita ao mundo intrauterino guiado por ninguém menos que Frédérick Leboyer:

“No ventre da mãe, a vida era uma riqueza infinita.

Sem falar nos sons e nos ruídos, para a criança todas as coisas

estavam em constante movimento.

Se a mãe se erguer e andar,

se ela se virar ou inclinar-se

ou erguer-se na ponta dos pés,

se ela debulhar legumes ou usar a vassoura,

quantas ondas,

quantas sensações para a criança.

E se a mãe for descansar,

pegar um livro e sentar-se,

ou se deitar e adormecer,

sua respiração será sempre a mesma

e o marulho calmo,

a ressaca, continua a embalar o bebê.

Depois,

passada a tempestade do nascimento,

eis a criança sozinha no berço,

ou melhor dizendo, numa dessas caminhas que são como gaiolas

de recém-nascidos.

Nada mais se mexe!

Deserto.

E o silêncio.

Repentinamente, o mundo ao redor congelou-se,

coagulou-se,

numa imobilidade completa e terrível.

E,

enquanto lá fora faz-se o completo vazio,

eis que

aqui dentro

alguma porção no ventre

agarra,

torce,

morde…

‘Mamãe, mamãe’

Ah, que pavor!

No ventre?

Não,

ali na escuridão!

Sim, no escuro

há um animal.

Sim, sim, um tigre, um leão…

“Eu o escuto! Eu o percebo!

Mamãe! Mamãe!

Um animal? Na escuridão?

Prestes a saltar sobre a criança para devorá-la?

Um lobo, talvez?

Um lobo transformado em avó?

e que espreita Chapeuzinho Vermelho

preparando-se para devorá-lo?

Um lobo?

Onde?

Na cama? Embaixo da cama?

Atrás do biombo?

Não!

Está bem ali no ventre.

E se chama

fome.

A fome é um monstro?

A fome é a sensação agradável. Não é verdade? Porque, de fato,

com muita satisfação, a vemos repetir-se várias vezes por dia.

Para nós,

uma agradável satisfação.

Porque nós sabemos muito bem que iremos comer.

E para a criança?

O pobre bebê pode movimentar-se?

Deslocar-se até a dispensa?

Como se estivesse no restaurante, pode ele gritar:

‘Garçom! Garçom!”?

Ele não se cansa de chamar! E, realmente, com toda força.

Ele berra

para mostrar que lá dentro…

E… não acontece nada!

É preciso esperar.

E sofrer.

E se inquietar… som o desassossego.

Até que, finalmente, do deserto exterior em que o mundo se fez

vem alguma coisa

que por fim aquieta

o monstro desperto

lá dentro.

Fora, dentro…

Eis o mundo divido em dois.

Dentro, a fome.

Fora, o leite.

nasceu

o espaço

Dentro, a fome.

Fora, o leite.

 E, entre os dois,

a ausência,

a espera,

sofrimento indizível.

E que se chama

tempo.

E é assim

que, tão somente

do apetite,

nasceram

o espaço

e a existência.

Se os bebês berram sempre que acordam não é porque a fome os atormente.

Eles não morrem de inanição.

Eles são aterrorizados pela novidade da sensação. Por essa

“coisa qualquer interior” que assume imensas proporções, justamente

porque o mundo exterior está morto.

É PRECISO ALIMENTAR OS BEBÊS.

Sem dúvida alguma.

Alimentar a sua pele tanto quanto o seu ventre.”

LEBOYER, Frédérick. Shantala

 

 

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