Os sons do parto

O post anterior foi sobre os Sabores do Parto e desde que João nasceu planejei escrever sobre essas experiências sensoriais que envolvem o parir e o nascer.

A vida corrida nos desconecta desses momentos de parar para sentir. Sentir os cheiros, os sons, os sabores, pegar nas coisas, ver o mundo que nos cerca de maneira mais serena… e o parto, como evento fisiológico, nos trás pra essa esfera de maneira surpreendente.

Talvez ele seja uma preparação para o que as fases seguintes nos exigirão. Criar um bebê e, posteriormente, uma criança, exige conexão com esse mundo sensorial, exige um ritmo diferente, No Passo dos meninos.

Mas voltando aos Sons do Parto, quando esperava Filipe eu participei de alguns encontros de musicalização para gestantes. A ideia era usar a música para nos conectar com o bebê, mas de verdade, não rolava. Eu era tão acelerada que não conseguia parar de pensar nas milhões de coisas que ainda estavam por fazer para sentir nada. Apesar de não alcançar o objetivo principal, os encontros foram legais, me deram a oportunidade de pensar em músicas que gostaria de ouvir no parto e, principalmente, que gostaria de cantar para o bebê.

Fiz uma playlist para o parto que, claro, não foi executada. Foi tudo muito intenso, rápido, desconhecido. Os únicos sons que me remetem ao parto do Filipe são os dos meus gritos e gemidos.

Mas o som da máquina de lavar roupa avisando que o ciclo terminou, esse ficará eternamente associado ao pós parto. Explico! Eu tinha uma lava e seca da Samsumg que ficava na cozinha e tocava uma musiquinha muito fofa quando terminava o ciclo.

Depois que Filipe nasceu, Sadat entrou num modo frenético de organizar e limpar tudo. Ele lavou, secou e esvaziou a piscina de plástico enquanto a equipe ainda jantava, limpou a casa toda e deve ter lavado umas 3 máquinas cheias de toalhas de banho que tinham sido usadas no parto.

Do quarto onde eu amamentava Filipe ou simplesmente contemplava aquele pacotinho eu ouvi a musiquinha da máquina de lavar inúmeras vezes. Pipe nasceu às 00:30 e Sadat ficou nessa pegada até as 5 da manhã.

Quando meus pais chegaram, não havia sinais de que um parto acontecera naquela noite. A casa estava faxinada e os varais cheios de toalhas brancas.

No nascimento do João eu passei uma gestação também muito acelerada. As demandas de Filipe ainda pequeno me anestesiavam em relação ao bebê que estava sendo gerado. Era como se não me desse conta, apesar da barriga gigante, que seria mãe de mais um.

Já no finzinho da gestação acordei com uma música na cabeça, pronta, depois de um sonho. Letra e música estavam dentro de mim na primeira e única vez na vida que compus. Compartilhei aqui em Uma canção pra você. Foi uma experiência nunca.

Comecei a sentir que o parto se aproximava de madrugada. Com 42 semanas e 2 dias de gestação acordei sentindo contrações mais fortes. Enquanto respirava e caminhava pela varanda ouvi o disparo dos aspersores de irrigação do jardim do condomínio. Eram 4 da manhã e só se ouviam minha respiração e o barulhinho da água sendo ejetada lá em baixo.

Nos dois anos que morei nesse condomínio, todas as manhãs em que me acordava para amamentar ou para meu devocional diário, o disparo dos aspersores me remeteu ao nascimento do João.

Durante o parto nos lembramos da Playlist!!! Viva!!!! Mas só duas músicas me marcam nas duas horas e meia de TP intenso: Mestre o mar se revolta (Sossegai), da Harpa Cristã e Sou humano, da Bruna Karla.

Sossegai eu cantei baixinho em muitas contrações. A analogia da contração como uma onda é perfeita pra mim e naquelas que duravam 3 minutos a sensação era a de um barquinho enfrentando ondas gigantes numa tempestade…

barco 2

Sou humano eu cantei por dentro no finalzinho da dilatação. Antes de entrar no expulsivo. Cada músculo meu cantou essa música. Posso assegurar!

Deus, mais uma vez segure em minha mão
Minha alma aflita pede tua atenção
Cheguei no nível mais difícil até aqui
Me ajude a concluir

Quando penso que estou forte, fraco eu estou
Mas quando reconheço que sem Ti eu nada sou
Alcanço os lugares impossíveis, me torno um vencedor

Estou sentindo minhas forças indo embora
Mas Tua presença me renova nessa hora
Vem, Senhor, vem e me leva além
O meu sonho de chegar está tão longe
Sou humano, não consigo ser perfeito
Senhor, vem e me leva além

Os trechinhos em negrito do refrão viraram quase um mantra de tanto que os repeti. A playlist tava lá tocando outra coisa e eu agarrada na música da Bruna Karla rsrsrs.

São sons de coisas, de canções, ruídos até, mas que imprimiram em mim uma associação imediata ao nascimento dos meninos. Registros sensoriais muito gostosos de reviver. A cada vez que os ouço sou invadida pelas memórias dos partos e todo aquele fulgor que me tomou à época sobe à tona e me permite flutuar.

E a vida segue, com canções de ninar, canções entoadas pelas crianças e outros tantos sons que costuram nossa história…

Quer partilhar com a gente os sons do seu parto? Conte aí o que tocou na sua cabeça.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s