Os sabores do parto

Numa época de partos hospitalares e medicalizados, pensar em comida durante o trabalho de parto parece um tanto quanto estranho, não é? Não é!

Estudos recentes (2017) feitos a partir de revisões sistemáticas mostraram que pacientes com dietas menos restritivas durante o trabalho de parto não tiveram nenhuma diferença nos resultados de saúde em relação a pacientes com dieta zero, a não ser uma média de 16 minutos a menos na duração do trabalho de parto (Ciardulli et al. 2017).

Apenas um dos estudos na revisão considerou a satisfação materna e constatou que mais participantes do grupo alimentar relataram satisfação com a nutrição durante o trabalho de parto, comparado às mulheres que beberam apenas água (97% versus 55%) (Goodall & Wallymahmed, 2006).

Em seu artigo Evidence on: Eating and Drinking During Labor, Rebecca Dekker conclui que, para parturientes de baixo risco (que não apresentam dificuldades respiratórias, eclâmpsia, pré-eclâmpsia, IMC superior a 40, ou que não recebem medicação opióide intravenosa durante o trabalho de parto), não haveria contra-indicação para uma dieta leve durante o trabalho de parto e que a parturiente deveria ser consultada sobre seu desejo ou não de se alimentar.

Essa talvez seja uma realidade ainda muito distante dos partos hospitalares, mas bem próxima de quem opta por um parto domiciliar ou consegue permanecer em casa durante a fase latente do trabalho de parto. Leia mais sobre o assunto nesses dois posts super completos Final de gestação – quando ir para a maternidade e Fases do trabalho de parto)

Para quem escolheu um parto domiciliar, a comida faz sentido não apenas para a parturiente, mas para a equipe que a acompanhará. Afinal, trabalhos de parto podem durar bastante e nada melhor pra alguém trabalhar feliz, que estar com a barriguinha forrada!

Meus dois partos foram em casa e preparamos muuuuita comida! Apesar da fartura, a intensidade das contrações e a velocidade com que os dois aconteceram, 4 horas e meia no de Filipe e 2 horas e meia no de João, não me permitiram desfrutar de nenhum décimo do que fora planejado.

No parto de Filipe eu tive uma fase latente silenciosa. Caminhei bastante de tardinha, tomando muita água (o que me rendeu uma bexiga super dilatada no TP sem conseguir fazer xixi). Após a caminhada coloquei roupa pra secar no terraço e comi sanduíche de pão de forma com patê de atum acompanhado de suco de uva integral. Meia hora depois estava em trabalho de parto ativo e talvez, por esse curto intervalo de tempo, não tenha sentido fome ou vontade de comer. Tive muita sede, mas fiquei um pouco enjoada e não deu pra tomar água.

Mas a fome que me acometeu depois que esses meninos nasceram foi da ordem do inexplicável! A intensidade do esforço físico que um parto requer faz a gente comer como leoa, literalmente!

Como nesse primeiro parto meus pais não estariam presentes, compramos e reservamos massa congelada que foi pro forno assim que o bebê nasceu. Devo ter comido uns três pratos de lazanha e ravioli. Lembro até hoje do gosto!

A sopa de mulher parida que tínhamos idealizado aconteceu só no dia seguinte, quando mamãe chegou para conhecer o netinho.

No parto de João meus pais estavam presentes. Papai se encarregou de Filipe e mamãe se escondeu na cozinha, onde se ocupou com o que sabe fazer de melhor: cozinhar! Ela literalmente bateu seus receios e medos no liquidificador junto com os ingredientes do bolo de milho.

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Foto de Kuara Fotografia

Eu tinha separado algumas frutas secas, castanhas e água de coco, mas só consegui comer uma ameixa e beber um dedinho de água no parto de João.

Acreditem: em duas horas e meia de trabalho de parto teve bolo e pão de queijo feitos na hora e sopa de mulher parida. Carol, da Kuara Fotografia, que fez o registro dos dois partos, diz que o nascimento do João deu-se no tempo exato de preparar a massa, enrolar e assar pães de queijo. A fornada saiu quase no expulsivo.

E teve a tão desejada sopa de mulher parida!

A galinha foi criada por minha sogra que a enviou de Minas com todo carinho junto com a farinha de milho.

O preparo ficou por conta da minha mãe, resgatando a tradição de minha avó materna e tias avós que preparavam o prato enquanto a outra trazia mais um herdeiro ao mundo.

E eu comi uma pratada de sopa de mulher parida com o melhor sabor do mundo depois que João nasceu. Comi sentada na cama com ele mamando ao peito enquanto Sadat colocava as colheradas na minha boca.

Receita de sopa de mulher parida? Não tem! É tudo no olho. Faz-se uma galinha caipira ensopada (quanto mais gorda melhor), coloca-se o caldo sobre um prato fundo cheio de farinha de milho e cheiro verde e tá pronto. A farinha incha e vira uma comida com “sustança” como diria minha vovó!

Acho que essa sopa nunca mais terá o mesmo sabor na vida, mas também nunca mais a comerei sem lembrar do 30 de julho de 2013 e do 3 de setembro de 2015!

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Foto de Kuara Fotografia

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