Comidinhas do Filipe – comida de hospital

Quando a gente pensa na situação atual da alimentação infantil não imagina quão fundo é esse poço!

Filipe foi internado por conta de uma pneumonia e o buraco já começou na emergência quando o simpático radiologista presenteou meu pequeno de 21 meses com um pirulito! Einh????

Na anamnese alimentar do internamento um questionário detalhado que começava com os industrializados oferecidos pelo setor de nutrição: danoninho, yacult, iogurte de morango, cremogema e mucilon de todos os sabores, biscoitos cream cracker, clubsocial e maizena, várias marcas de leite em pó.

A resposta para todos:
– NÃO, NÃO, NÃO, NÃO, NÃO, NÃO, NÃO e NÃO!
Ao que me respondeu a técnica:
– Mas o que ele come?
– Quando você chegar na lista de comida de verdade pode marcar tudo! Todos os cereais, legumes, verduras, frutas, raízes e proteínas à exceção de ovo e mamão por conta de uma alergia alimentar.
– E o que ele bebe? Posso mandar suco?
– Mande água. Água e peito são suficientes!

Nos dois dias subsequentes ao internamento fui autorizada a levar alguns alimentos de casa pra ele devido à “dieta restrita”. Pensei que o enquadramento como “paciente de dieta restrita” fosse por conta da alergia a ovo e a mamão, mas não, foi pelo açúcar que pedi que não adicionassem às preparações!!

Sei que não falam por mal, mas essas sutilezas das palavras empregadas dizem tanto a respeito da cultura vigente. Restrita é a dieta de quem só consome os sabores artificiais produzidos pela indústria química! De quem prefere um suco de uva ou de manga na caixinha a saborear as diversas nuances que as frutas in natura oferecem.

Numa das manhãs trocaram o lanche do meu filho com o da garotinha do quarto ao lado. Na bandeja havia um copo de suco adoçado e 10 biscoitos Passatempo. Fiquei pensando em como aquilo poderia ajudar alguém internado a ficar melhor. Destrocadas as bandejas, na de Filipe estava uma laranja e um copo de iogurte natural que eu tive que comprar pra oferecer a ele como alternativa ao danoninho. E ele era o paciente com “restrição alimentar” da instituição!!!!

Depois de uns dias tive a oportunidade de conversar com a nutricionista do hospital. Ela me disse que quando assumiu a função elaborou um cardápio saudável, nutritivo e balanceado, mas que semana após semana a comida voltava toda para o lixo. Afirmou que, com pesar, chegou à conclusão de que as pessoas não estavam ali buscando uma reeducação alimentar, mas a melhora dos filhos para ter alta e voltar pra casa e que, a expectativa das mães era de que as crianças tivessem acesso a uma alimentação similar à que tem em casa pois com o confinamento e as medicações, a tendência era do paciente diminuir o apetite.

Fiquei pensando até que ponto o profissional de nutrição num cenário desses consegue mudar a cabeça das pessoas. Não entendo nada de nutrição hospitalar, mas penso que seja um imenso desafio.

Quanto a Filipe, percebi com o passar dos dias grande empenho da equipe em variar o cardápio dele. Tivemos leguminosas diferentes a cada dia (feijão, grão de bico, lentilha, ervilha), arroz integral, diferentes apresentações de legumes uma vez que ele não curtia os purês do cardápio regular, inclusão de verduras, tapioca com linhaça no lanche da tarde a meu pedido, entre outras alterações. Enfim, conseguiram superar a ideia de que ele tinha “restrição alimentar” e descobriram um leque de opções sem fim.

Segundo a nutricionista, em 12 anos de casa, ele foi a primeira criança internada a comer comida de verdade. Já a cozinheira, que subiu para conhecê-lo pessoalmente, disse que o prato dele era o mais lindo e gostoso de preparar.

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Filipe desfrutando do almoço e aproveitando pra praticar as habilidades da mão esquerda uma vez que o acesso venoso estava na mão direita. O cardápio do dia era arroz integral, lentilha, couve-flor, frango com caldo de abóbora e purê de abóbora.

Saldo de tudo: 12 dias de internamento, 200g à mais na balança e uma prova de que sim, crianças que comem comida de verdade existem! Elas só precisam de pais que ofereçam comida ao invés de aditivos e saborizantes.

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