O peito não é o vilão!

Eu participo de vários grupos virtuais de apoio a maternagem. Alguns deles voltados para amamentação, introdução alimentar e alimentação saudável e um dos temas recorrentes nesses grupos trazidos por mães cheias de dúvidas e inseguranças é o papel do leite materno depois que se inicia a introdução de outros alimentos.

Existe um mito, muito bem alimentado em nossa sociedade, de que o leite materno atrapalha a criança de ingerir outros alimentos e, com isso, as mães recebem conselhos totalmente equivocados do tipo:

  • introduzir outros alimentos antes dos 6 meses quando se aproxima o fim da licença maternidade a fim de “acostumar” a criança a ficar sem o leite materno durante a ausência da mãe;
  • deixar o bebê com fome sem oferecer leite materno para que ele coma mais outros alimentos;
  • não oferecer leite materno próximo às refeições para não atrapalhar a absorção de outros alimentos;
  • desmamar a criança que come pouco para que ela, sem o leite materno, passe a comer mais.

O pior de tudo é que muitas vezes esses conselhos vem de profissionais que deveriam estimular o aleitamento materno reconhecendo sua importância e seu papel na nutrição do infante, seja ele menor ou maior de 6 meses.

No período de internação de Filipe ouvi algumas abobrinhas em relação a amamentação. A nutricionista que entrou no quarto enquanto eu estava amamentando (estou no 5° mês de gestação e amamento um filho de 21 meses) perguntou-me se Filipe estava comendo normalmente. Eu respondi que não, que o apetite estava voltando, mas ainda não comia o normal. Ouvi num tom de ironia : “mas também, com a mãe ao lado e o peito à disposição, como vai voltar a comer, não é?

Do pediatra que acompanhava Filipe diariamente também ouvia ponderações semelhantes ao ser questionada sobre o apetite dele, que havia se normalizado na primeira semana. Ao responder que ele estava se alimentando bem eu era contestada se ele estivesse mamando: “mas tá comendo mesmo, esse peito não tá atrapalhando não?

Vejam como não é falta de acesso à informação. Esses profissionais e muitos outros estudaram nutrição infantil. Tiveram e tem acesso à informação nutricional de qualidade, e ainda assim não conseguiam fazer o simples raciocínio de que, graças à amamentação continuada aquela criança estava evoluindo bem e, mesmo inapetente em decorrência das medicações e do confinamento, mantinha-se bem nutrido!

Eles percorrem o caminho do senso comum e da cultura vigente de que amamentação é um empecilho para a boa nutrição, quando na verdade, o leite materno é um componente importantíssimo para uma alimentação infantil de qualidade.

“A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde recomendam aleitamento materno exclusivo por seis meses e complementado até os dois anos ou mais. Não há vantagens em se iniciar os alimentos complementares antes dos seis meses, podendo, inclusive, haver prejuízos à saúde da criança (…)

No segundo ano de vida, o leite materno continua sendo importante fonte de nutrientes. Estima-se que dois copos (500ml) de leite materno no segundo ano de vida fornecem 95% das necessidades de vitamina C, 45% das de vitamina A, 38% das de proteína e 31% do total de energia. Além disso, o leite materno continua protegendo contra doenças infecciosas. Uma análise de estudos realizados em três continentes concluiu que quando as crianças não eram amamentadas no segundo ano de vida tinham uma chance quase duas vezes maior de morrer por doença infecciosa quando comparadas com crianças amamentadas. (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2000)” (MS, Saúde da criança: nutrição infantil, p.12)

As tabelas a seguir ilustram o papel do leite materno na nutrição do bebê de 0 a 24 meses e a contribuição que ele presta na demanda básica de nutrientes de uma criança de 2 anos, respectivamente.

leite materno nutrientes leite materno 2 anos

O que nós mães precisamos quando estamos dispostas a manter o aleitamento materno é de apoio, de acesso a informações corretas, de encorajamento e de suporte, especialmente daqueles que lidam com a saúde do infante. Já nos bastam os desafios inerentes a amamentação em si, tendo que lidar com o manejo para evitar fissuras mamárias, mastites e pega incorreta, com a demanda altíssima que os bebês fazem do peito em contraposição ao tempo escasso que temos para nos dedicar a outras tarefas também necessárias, com a licença maternidade menor que o tempo de aleitamento materno exclusivo recomendado pelo MS e OMS, com o desgaste da amamentação noturna prolongada, entre outros inúmeros fatores.

E quando uma mulher reconhecer que seus limites foram alcançados e que, apesar de seu desejo, não será possível manter a amamentação prolongada (por mais de dois anos), que ela também o faça por livre escolha, com autonomia e leveza e não por pressão e terrorismo sociais.

Veja as informações completas sobre os benefícios do aleitamento materno no Caderno de atenção básica – Saúde da Criança: Nutrição infantil – Aleitamento Materno e Alimentação Complementar publicado pelo Ministério da Saúde em 2009.

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