Crianças também tem direito à verdade

Horas antes de entrar em trabalho de parto eu havia terminado de ler um dos livros mais reveladores que a maternidade me apresentou: A maternidade e o encontro com a própria sombra, da psicóloga argentina Laura Gutman. Creio que deveria ser leitura obrigatória para toda mãe. Não sei enumerar a quantidade de situações em que o que aprendi com ela me ajudou a vivenciar a maternidade de maneira mais lúcida.

Uma das pontuações mais reveladoras que aprendi foi me comunicar com meu filho a partir da verdade, em qualquer circunstância. E isso foi posto em prática desde os primeiros dias. Entendi que a verdade dita com palavras organiza o entendimento das crianças e constrói a estrutura emocional sustentada pela lógica e que a mãe é a pessoa que nomeia como são as coisas e, para além do mundo objetivo, nomeia também as percepções e sensações pessoais da criança.

Com Filipe bebê, comecei a me treinar a esse tipo de comunicação com explicações simples dos procedimentos a que ele era submetido. “Mamãe vai tirar sua roupa porque está na hora de tomar banho, a água vai estar quentinha”, “agora vamos mamar e dormir porque percebo que você está cansado e com sono”, “vou trabalhar agora, a vovó e o vovô cuidarão de você e no fim do dia eu volto para te buscar” eram frases usadas para organizar o entendimento do que acontecia com ele no mundo exterior.

Mas o mais valioso desse aprendizado foi aprender a nomear e a verbalizar pra Filipe os meus sentimentos e os dele em situações difíceis. Comecei logo nos primeiros dias quando não havia explicação lógica para o choro do recém-nascido dizendo frases simples como “não sei exatamente o que está acontecendo, talvez seja difícil pra você se acostumar com o mundo aqui fora, mas saiba que eu estou aqui com você e, apesar de me angustiar com esse choro, ficarei contigo até que se acalme”. No período da angústia da separação, por volta dos 8/10 meses, dizia “eu sei que você sente a minha falta e que estar longe de mim te assusta, mas eu preciso tomar banho. O papai ficará ao se lado até eu terminar e dormiremos juntos em seguida”.

Com o tempo fui compreendendo que esse tipo de comunicação verdadeira não inibe o choro, mas abrevia sua duração. Filipe chorava, mas se acalmava à medida em que o ajudava a compreender o que estava acontecendo. Isso tem sido muito útil nesse período atual em que ele vem descobrindo-se como indivíduo separado de mim e em que lidar com as frustrações é um grande desafio. Chora porque não consegue realizar determinada tarefa, chora quando é contrariado, mas sempre tentamos nomear o motivo subjetivo que desencadeia o choro. “sei que você está bravo porque queria muito subir em cima da mesa, mas não posso permitir que faça isso porque é perigoso”, “sei que está aborrecido porque vamos tomar banho, mas não dá pra adiar, precisamos ir agora”, “sei que está com muito sono e por isso se irrita, mas vamos resolver isso indo dormir”.

Parece loucura, mas funciona! Segundo Laura Gutman “A criança vai construindo o próprio eu, separando-se da fusão emocional, à medida que vai se integrando com o que está “fora”. Este fora tem de ser compreensível ou lógico, Quando sente dor, precisa que aquela sensação seja nomeada como dor para que, cada vez que sinta dor, possa ela mesma reconhecê-la como tal. (…) Quando Ramiro cai e a mãe o consola dizendo “está doendo muito”, uma peça se encaixa na outra, porque se nomeou com exatidão o que acontece. Certamente vai chorar menos, porque conta com o reconhecimento da palavra da mãe, que, além de consolá-lo, constrói a configuração de seu pensamento unido ao sentimento.” (Gutman, 2013, p.113)

Esses 12 dias de internação nos mostraram como falar a verdade para uma criança e ajudá-la a entender o que sente pode ser libertador. Filipe foi submetido a vários procedimentos incômodos ou dolorosos. Numa das trocas de acesso venoso, foi necessário espetá-lo seis vezes até encontrar a veia ideal. Não mentíamos dizendo “não dói nada”. É claro que dói! Um adulto sente dor, como ele não sentiria? Dizíamos a verdade “é preciso espetar mais uma vez, dói, mas logo depois passa e eu estarei aqui ao seu lado”. E incrivelmente, ele gritava na hora, mas parava em seguida. Quando se recusava a inalar a nebulização eu dizia “sei que você está cansado e quer que isso acabe logo para ir pra casa, mamãe também está cansada, mas precisamos terminar o tratamento para ir embora” e isso o acalmava para continuar o procedimento.

Aprendi na prática que a dor pode ser ruim sem ser traumatizante, pode ser difícil, mas não precisa provocar angústia e que acolher a dor torna um momento duro um pouco mais suave. Isso vale pra crianças e pra adultos, só precisamos praticar.

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