Cesárea não é parto, mas você não deixa de ser mãe ou torna-se menor por causa dela!

Não tem pra onde fugir! Esse é um assunto que volta e meia supita nos espaços em que mães se reúnem, seja de maneira virtual ou presencial.

briga mães

“Não sou menos mãe por ter feito cesárea!” E essa fala costuma vir em defesa fervorosa de acusações que nunca foram feitas.

Deixa eu explicar melhor. Quando a gente fala que cesárea não é parto, muitas, mas muitas mães se sentem ofendidas por não entenderem a afirmação.

Tecnicamente, cesárea não é e nunca será parto. Cesárea é um procedimento cirúrgico (tenha sido ele necessário ou não) e parto é um evento fisiológico (tenha ele tido intervenções ou não). Mas quando eu digo que quem foi submetida a uma cesárea não pariu eu não estou, de maneira nenhuma, dizendo que essa mulher não é mãe ou é “menos mãe”!!!! Apesar de ser isso que boa parte das que bradam entendem.

Vou dar um exemplo ainda mais claro: uma mãe adotiva pariu? NÃO! Mas ela deixa de ser mãe ou sua competência em ser mãe é afetada pelo fato de não ter gestado e parido aquele filho? NUNCA! Mas se ela se sentir ofendida por eu ter dito que ela não pariu e tentar se justificar dizendo que o processo de adoção foi semelhante a um parto, isso muda o fato dela não ter parido? NÃO! Ela viveu uma experiência completamente distinta, e nem por isso sem beleza e intensidade, mas ela NÃO PARIU, ela adotou uma criança e será, para esta, a melhor mãe que puder ser.

Fica mais claro assim? A via de nascimento não determina ou mensura a capacidade de maternar ou de amar a cria e se relacionar de maneira intensa com ela, apesar do parto fisiológico (vaginal) fornecer uma carga hormonal que ajuda nesses primeiros contatos. Mais uma vez, ajuda, mas não determina!

O desfecho de uma gestação não é, na nossa sociedade atual, responsabilidade exclusiva da mulher, mas resultado de uma conjuntura de fatores. Muitas dizem que estavam muito bem informadas ao optarem por uma cesárea, mas é sempre bom pensar que informações foram essas que a levaram a essa decisão.

Há a cultura do medo em torno do parto que aterroriza e amedronta qualquer mãe valente e que é usada inescrupulosamente por profissionais de saúde para demover a mulher de seu desejo inicial de parir. Não acredita? Quantas vezes durante a gestação pessoas desconhecidas chegaram perto de você pra contar histórias pavorosas de parto? Quantas vezes saímos da ultrassonografia com as retumbantes constatações do profissional: “puxa, que bebê grande! Você quer mesmo parto normal?” Quantas vezes ouvimos dos obstetras: “nossa, corajosa você é em querer o parto normal, todas as minhas pacientes preferem cesárea!” ou “se tudo der certo nós vamos tentar o parto normal” (como se a probabilidade das coisas darem errado fosse maior que de dar certo) ou “uma moça tão jovem não vai querer se acabar toda por baixo por causa de um parto, vai?” Será que esse tipo de abordagem favorece a opção serena de uma mulher pela via de parto?

Há ainda as mentiras deslavadas enfiadas goela abaixo das gestantes, geralmente no final da gestação ou mesmo em pleno trabalho de parto, tais como o bebê é muito grande; você não tem ou não terá passagem; você já teve uma cesárea e não pode ter parto normal ou o seu útero vai explodir; seu bebê está com o cordão enrolado no pescoço, pode sufocar e ter sequelas gravíssimas; você não entrou em trabalho de parto; seu trabalho de parto está demorando demais, não podemos mais esperar; você está com pressão alta e não pode ter um parto normal (mas pode ser submetida a uma cirurgia eletiva de grande porte!!!!!!) e o repertório de falsas indicações de cesárea continua, geralmente acompanhado da gentil indagação “você não vai querer colocar a vida do seu bebê em risco, não é mãezinha?” Que mãe ousaria contestar esse tipo de assédio??????? É claro que uma pessoa com juízo faz a opção por uma cesárea diante dessas ameaças. O problema é que são falsas, mas a mãe não sabe disso, afinal, é o obstetra que estudou anos a fio quem está dizendo!

Temos ainda uma outra categoria de mães que tiveram acesso à informação, que planejaram seus partos levando em conta tudo o que consideraram como melhor opção e foram engolidas pelo sistema de saúde brasileiro. Tiveram seus partos roubados pelos profissionais de saúde que deveriam ampará-las, não se enquadravam no perfil de casas de parto, não foram respeitadas em suas escolhas pelos plantonistas dos hospitais do convênio e tem a dura sensação de terem nadado, nadado e morrido na praia.

Por fim, ainda temos as mulheres que passaram por uma cesárea por indicações reais e que graças a esse procedimento estão vivas com seus bebês vivos!

Em todos os casos, tenha sido a cesárea marcada por “opção” da gestante, por conveniência médica, por enganos, por necessidade, nenhuma dessas mães deixará de ser MÃE ou será menos capaz, ou amará menos seus filhos!

Entender os caminhos que te levaram à uma cesárea ou um parto normal ou à uma adoção, faz parte do processo de maternar. Acolher frustrações, reconhecer limites, entender as circunstâncias nos fortalece e nos ajuda a apoiar outras mulheres. Ficar na defensiva não colabora com essas elaborações. Achar que estão te acusando tão pouco! E não, não deixaremos de informar por correr o risco de sermos mal interpretadas, e também não sessaremos de acolher cada mãe que, a seu tempo, digerir a via de nascimento de seus filhos, tenha sido ela qual for.

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