Pressão para amamentar?

Tá, reconheço que amamentação tem sido tema predominante nas minhas postagens, mas é que o assunto não deixa a mídia ou a boca e os pensamentos das pessoas.

Esse mês saiu mais uma matéria daquelas que deixam a gente pensando por horas em como isso é possível! Foi publicada no Blog Maternar da Folha e o título era “Selfie de amamentação oprime mãe de mamadeira, diz estudo com britânicas.

Eu achei tão absurdo que isso pudesse ser real que fui verificar a fonte original do dito estudo, um canal de vídeos voltado para mães britânicas chamado Channel Mum. Segundo a fundadora do canal, a onda de selfies de celebridades amamentando tem feito com que as mães que não conseguem amamentar se sintam oprimidas e diminuídas. No Reino Unido, apesar de 80% das mães iniciarem a alimentação dos recém-nascidos optando pelo aleitamento materno, após os 6 meses, apenas 1% delas conseguem manter a prática.

No Brasil as estatísticas são um pouco diferentes. mas igualmente reveladoras. Pesquisa encomendada pelo laboratório Lansinoh, publicada em Setembro de 2014, revela que apenas 33% das brasileiras conseguem manter o aleitamento materno por 6 a 12 meses, apesar de 81% acreditar que tal prática deve durar por, no mínimo, esse tempo.

O que acontece então entre o desejo de amamentar e a amamentação em si? Será que o sucesso da amamentação está vinculado apenas a uma questão de esforço e de empenho da mãe? Acredito que se assim fosse, o sentimento de opressão e de inferioridade por parte das mães que alimentam seus filhos por mamadeira seria justificável. O raciocínio lógico, nessa hipótese, seria o de que “eu não fui competente o suficiente, ou não fui mãe o bastante, não me empenhei tanto quanto”.

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Amamentando grávida a 1.123 metros de altitude, no Pico da Ibituruna, em família

Acontece que, para amamentar, não basta apenas querer. É preciso informação, apoio e acolhimento. E esses três elementos estão em falta por aqui.

A informação deveria partir dos profissionais que assistem à mulher durante o pré-natal, de grupos de apoio nas comunidades e de outras entidades. O pré-natal também deveria abraçar o puerpério e os cuidados com o bebê, incluindo aí a amamentação.

Quando é que uma mãe é minimamente instruída sobre como amamentar? Na maternidade, assim que o bebê nasce, não é? Mas logo ela tem alta e vai pra casa com a tarefa de colocar em prática. E a realidade é que uma breve aula de alguns minutos não é suficiente para abranger toda a individualidade daquela díade mãe-bebê. Alguns bebês tem dificuldade para acertar a pega, mulheres tem mamilos em formatos e tamanhos diferentes, o mamilo fissura (racha, fere), amamentar torna-se doloroso, o bebê não consegue sugar o suficiente e chora, a privação do sono mostra seus efeitos, afinal, todo mundo acredita que o seu bebê vai dormir por 3 ou 4 horas seguidas tão logo nasça porque o filho de fulana foi assim. E aí aparecem os bem itencionados (parentes e amigos) sugerindo uma chupeta para acalmar o bebê ou uma mamadeira com fórmula para aplacar a fome da criança e o cansaço materno e assim começa a derrocada da amamentação.

Na primeira consulta com o pediatra a mãe se queixa de toda essa dificuldade e, na maioria das vezes, antes de se investigar as causas dela, eis a prescrição salvadora do leite em pó! Na primeira noite de mamadeira, o pobrezinho apaga por 4/6 horas seguidas. “Coitadinho, estava mesmo com fome, reconhecem todos. É seu leite que era fraco minha filha, ou não era o suficiente, mas agora você vai ver como ele vai engordar e ficar calmo….” Quando o que ocorre, na maioria dos casos, é que o bebê está empachado tentando metabolizar um alimento muito mais pesado, mas nem por isso tão nutritivo, que o leite materno, que é leve e de fácil digestão.

Sinceramente, o que vejo não é uma pressão para que as mães amamentem, mas exatamente o contrário. A pressão é grande para abandonarmos o aleitamento materno exclusivo e ela vem de todos os lados. Como dito acima, vem de profissionais da saúde, de familiares e amigos, vem de quem a gente nem conhece, mas que dá palpite na amamentação alheia e vem da mídia, que se aproveita desse “sentimento de fracasso” das mães que são engolidas por essa avalanche de intervenções e veicula lindas peças publicitárias, com crianças fortes e coradas onde o que importa é o amor e o cuidado, mas a marquinha do leite tá ali no fundo, como se sinônimo da mensagem ele fosse.

Volto a repetir, o sucesso da amamentação não depende apenas do querer materno. É preciso informação de qualidade, apoio familiar e de profissionais de saúde para lidar com os percalços e com o desgaste físico que o aleitamento materno exclusivo pode causar e é preciso acolhimento àquelas que, mesmo tendo sido bem assessoradas,  precisarem complementar com fórmula para que não desistam do aleitamento materno.

E pensando nisso é que acredito que as selfies de amamentação tem um papel de estímulo e não de julgamento. Numa sociedade em que se faz propaganda de suco de caixinha, fórmula infantil e petit suisse, mas não se veiculam campanhas publicitárias de incetivo e apoio ao aleitamento materno, o trabalho de formiguinha dessas mães que postam fotos de suas crias mamando com uma ou outra informação na legenda deve ser celebrado. Não estamos dizendo com isso que somos melhores, mas que é possível, desde que nos apoiemos umas às outras.

Ah, e só pra constar, selfie de amamentação não é novidade. Existe a séculos, só não tínhamos a internet para viralizar a prática. Veja outras imagens históricas de mulheres amamentando aqui.

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Xilografia de mãe amamentando o filho por Kitagawa Utamaro (1753-1806)

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