Amamentação em tandem

Se você participa de grupos virtuais de amamentação já deve ter visto o frisson que as fotos de mães amamentando duas crianças em idades diferentes causam. “Diva!”, “Meu sonho!“, zilhões de coraçõezinhos nos comentários e um índice de curtidas fenomenal.

Se você não participa de grupos virtuais de amamentação, ver ou apenas imaginar uma mãe amamentando duas crianças em idades diferentes dá um nó na cabeça. “E pode?“, “Não faz mal?” Pra você, recomendo primeiro a leitura de Amamentar grávida, mais um dos tabus da amamentação. Depois volte aqui e continue a leitura desse texto.

Agora chega junto que vou te contar uma coisa. Sabe as fotos que falei lá em cima? Então, elas são realmente inspiradoras. Tem uma capacidade única de fazer a gente transbordar amor. Dão até arrepios, sai leite do peito, olho afoga nas lágrimas… Uma belezura só.

tandem

A primeira mamada do João, momentos após nascer, foi compartilha com Filipe. Foto por Kuara Fotografia, arte por PiscAtr, Tree of life

Eu tenho várias assim: lindas! Filipe e João mamando juntos, uma mãozinha acariciando uma cabeça, olhares, ainh… seria perfeito se elas fossem fotos de outra mãe, mas como são minhas, eu consigo enxergar o contexto que a foto não conseguiu eternizar. E é sobre ele que eu quero te contar.

Amamentar em tandem é tabu, mas é possível (se não leu o texto que indiquei, volte lá e leia!) e deve ser sempre uma escolha da mãe. Ocorre que é uma escolha que precisa ser feita de maneira um pouquinho mais racional e menos passional.

Amiga, é puxado! É tenso! É desgastante ao extremo!

Por trás daquela foto linda, tem uma mãe com cada centímetro do corpo doendo no exercício diário de achar uma posição possível pra amamentar um recém-nascido que não nasce sabendo mamar e uma criança que mama até de cabeça pra baixo.

Tem uma mãe com sono, com fome, precisando tomar banho, cuidar da casa, da comida (tudo isso que você conhece de puerpério), mas grudada num assento dando o peito pra um, pra outro, pros dois.

Tem uma mãe trancada no quarto dando mamá ao pequeno enquanto o maior esguela do lado de lá da porta pedindo também.

Tem uma mãe vendo seu corpo ser disputado no grito por duas crianças e tendo que, na fragilidade do pós-parto, escolher a quem acudir.

Tem uma mãe esgotada fisicamente e ainda tendo que lidar com todo o pacote que o pós parto apresenta.

Ok, você pode conhecer algumas mães que tiveram uma experiência linda de amamentação em tandem. Já ouvi relatos até de fila pro mamá (ninguém me provou, só contou e nesse mundo virtual sabe como é né?). O fato é que tudo na maternidade é imprevisível. O que aconteceu com alguém não garante que vá acontecer com você. Até mesmo sua experiência anterior não garante que vá ser lindo de novo.

Então avalie bem suas condições para não escolher só pela emoção como eu fiz.

Eu fui pra essa aventura achando que ia ser lindo, inspirada nas fotos. Só que não foi. João teve muita dificuldade pra acertar a pega do peito. Só conseguiu mesmo com quase 3 meses. Isso tornou impossível amamentar os dois ao mesmo tempo sem que ele tivesse engasgos monstros.

Filipe mamava em livre demanda (na hora em que queria). Enquanto eu trabalhava era super tranquilo, porque ele mamava uma vez ao dia e pronto. Foi eu entrar de licença e ficar “dando sopa” em casa que ele passou a mamar muito mais e, com a chegada do irmão, mais ainda. Foi a regressão mais visível dele. Ele passou quatro meses inteiros em aleitamento materno exclusivo. Isso, você não leu errado, uma criança de 2 anos, passou quatro meses, 120 dias, só no peito, sem comer/beber mais nada. Eu achei que fosse pirar!

Retirar a livre demanda no caos dos ciúmes me parecia a coisa mais insensata a fazer. Respirei fundo e fui levando até onde deu, mas amamentar dois a noite toda me exauriu. Conduzi um desmame noturno salvador (leia aqui) que me custou 20 noites sem pregar os olhos.

E isso tudo foi atenuado pelo fato d’eu contar com uma rede de apoio espetacular e não ter precisado me preocupar em fazer comida, lavar roupa, limpar casa, o que me faz exceção. A grande maioria das mães não conta com apoio.

Quero mais um filho, mas não quero tandem novamente. Vou aguardar/conduzir o desmame de João. Penso que estarei mais inteira pra todos. Guardarei com carinho as lindas fotos que tenho como registro da maior loucura da minha vida me lembrando que entre as imagens e a vida real há um abismo profundo.

 

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6 comentários sobre “Amamentação em tandem

  1. Estou com 28 semanas de gravidez e tenho uma filha de 1 ano e 10 meses q ainda mama para dormir (1x por dia quando trabalho, 2x por dia fds). Estou tendo colostro e ela não está nem aí. Queria desmama-la até meu bebê nascer, pois não quero ficar esgotada assim… O puerpério da minha já foi bem traumatizada. Obrigada por compartilhar a experiência!

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  2. Estou grávida do meu segundo. Ainda bem no inicio. Ainda amamentava com muita alegria o meu primeiro. Eram momentos de tranquilidade e descanso para mim e pra ele.
    Estou fazendo o desmame do meu Pedro manoel. Não está sendo fácil. Essa questão de amamentar ainda grávida gera um frison nas pessoas, além disso eu consegui perceber certos desafios que eu tenho pessoalmente é que geraram sentimentos errados no meu Pedro Manoel. Estou decidida a não fazer o tandem, você me ajudou com seus posta a reenfatizar isso, mas não sei como desmamar o meu pequeno sem causar muito sofrimento nele!!

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    • Oi Renata, que legal que meu relato pode te ajudar na tomada de decisão.
      Eu parei de escrever um pouco no blog e por isso não relatei os desmames (meu mais novo está desmamado há um mês), mas as conduções dos dois foram semelhantes: fiz por etapas. Comecei pelo noturno que era o que mais me incomodava e segui por turnos até desmamar por completo.
      Com Filipe foi muito difícil, ele argumentava, chorava e insistia.
      Já com João foi facílimo. Não sei se por eu estar mais segura do processo ou pelo fato dele estar mais pronto para o desmame, apesar de mais novo.

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