A maternidade ideal e a culpa, é possível escapar desses fantasmas?

Minha linha do tempo no Facebook e este blog são recheados de postagens escritas ou compartilhadas que estimulam uma maternidade consciente que passa pela gestação, via de nascimento, amamentação, introdução alimentar, vínculo, disciplina positiva e outras tantas coisas.

Apesar do meu desejo de incentivar outras mulheres a descobrir um caminho novo de maternagem (pelo menos foi novo pra mim) muitas vezes percebo que o ativismo por essa causa produz o efeito contrário, o de afastamento daquelas que não podem ou não conseguem vivenciar essa maternagem proposta. E essa afastamento, produz ainda um sentimento de frustração e de culpa que não deveria ter espaço no coração de uma mãe.

Na semana passada recebi o depoimento de uma mãe que me tocou muito. Com a autorização dela, o reproduzo aqui para depois pensarmos sobre o que ele trás.

“Na verdade, algumas postagens, explicações, relatos e desabafos fazem efeito contrário! Hoje passei a manhã inteira querendo por o meu ponto de vista com relação a isso, pois volta e meia quando abro meu feed fico entristecida ao ler tantas coisas sobre aleitamento e partos, etc… […]

Eu tenho 2 filhos e não pari normal nenhum deles, no primeiro engordei cerca de 30kg, fiquei tão inchada, deformada, etc mas Deus na sua infinita misericórdia cuidou de mim até o fim da minha gestação. Meu maior desejo era que meu filho nascesse de parto normal, fiz de tudo, mas na data exata minha bolsa rompeu e eu não sentia nada além da minha barriga baixando e a água escorrendo pelas pernas, entrei em trabalho de parto 5:30 da manhã e meu filho nasceu as 8:40 por uma cesariana pois só havia 2cm de dilatação… eu chorava tanto que o anestesista me deu uma bronca. Eu não chorava de dor, chorava de tristeza por que iria parir assim… minha cesárea demorou muito para ficar boa, eu fedia, sangrei 30 dias um sangue preto e precisei ser medicada para que tudo cessasse.

Depois de 8 anos engravidei e tentei esquecer tudo que havia ocorrido na primeira gestação, mas as vezes o medo tentava dar as caras… minha gestação foi uma benção, engordei bem menos, não inchei NADA, mas meu bebê não encaixou, eu orava e pedia a Deus para que fosse um parto normal e tentei tudo pra isso… com 36 semanas meu bebê ainda estava sentado e eu perdendo liquido sem saber, mas na manhã que eu ia fazer a ultima ultrassom sangrei minutos antes de sair de casa e já cheguei em trabalho de parto no consultório, estava dilatando e meu liquido já havia perdido quase todo, sai direto para a maternidade, fui internada 11h da manhã e pari as 18:40 sentindo contrações de 5 em 5 min, mas foi cesárea pois meu bebê estava sentado e quase sem nenhum liquido… nasceu prematuro de 36 semanas 2.445 kg, 44cm… mas estava bem e saiu comigo do hospital

Eu amamentava normalmente até que em uma das consultas de rotina me pediram um eco cardiograma e de repente meu bebê saudável estava prestes a morrer, um problema de coração tirou o meu sono, mas Deus foi misericordioso e providenciou tudo, mas nesse intervalo meu peito não produzia o quanto deveria devido ao estresse , mesmo assim fiquei só no aleitamento materno, chorava, pedia a Deus para aumentar meu leite, comia, fazia tudo que precisava… não suportava a ideia de ouvir minha mãe e outras pessoas falando que meu filho estava chorando com fome e que eu precisava completar, relutei muito tempo…

Com 4 meses ele teve uma diarreia que não parava, foram 30 dias de angústia, internei ele, mas não cessou, procurei um profissional especializado, fizemos milhões de exames caro, baratos e de todas as formas… não dormia mais, chorava de dor em ver meu filho passando por aquilo e persisti no aleitamento, até descobrir que meu leite estava “sujo” ele teve alergia a proteína do leite e ai foi a luta eu amamentava com leite “sujo” e usava um formula cara e especial, além de ser acompanhada por uma nutricionista especializada para controlar a dieta; me vi comendo somente beiju com café preto, frutas e verduras, além de feijão e arroz, mas nada de controlar as fezes dele… descobrimos que também tinha alergia a soja, tirei tudooooooo da minha dieta, passei fome só pra amamentar. Usando leite caro que custa quase 200,00 a lata e peito com leite “limpo” consegui ver meu filho bem outra vez.

Hoje ele está com 7 meses e apesar de não querer tanto o peito eu ainda insisto e persisto na dieta super, mega, master restritiva… mas cada vez que leio postagens sobre aleitamento exclusivo e parto normal humanizado um sentimento de dor e tristeza me invade, a forma como falam me faz sentir pequena, menos mãe que as outras que conseguem seguir um figurino de renascimento do parto. Eu me sinto deprimida com determinadas postagens, me sinto culpada!!! Me sinto culpada por não ter parido meus filhos normal e por não ter amamentado exclusivamente por 6 meses e por saber que não vou amantar até 2 ou 3 anos… Sou uma mãe mega atenciosa, passei noites em claro, noites em hospital sem pregar o olho, dei e dou o amor que eles precisam e foi esse amor que os fez viver e sobreviver a tantas coisas, pois Deus viu tudo e ouviu a minha oração! Só que ver mulheres sendo parabenizadas e engrandecidas por conseguirem amamentar exclusivamente e ou relatos dando mega importância a isso parece diminuir nós meras mães mortais! Sinto por me expressar assim, mas eu estava guardando tudo isso. Sabe o que parece, que algumas mães são mais especiais que outras, que elas são melhores mães e que amam mais seus filhos por parirem normal, por não darem mamadeira ou bubu, etc… me sinto excluída do clube das mães perfeitas e politicamente corretas.”

Antes de começar a escrever, gostaria que essa mãe e todas as outras que vivenciam os mesmos sentimentos recebessem um abraço demorado, quente e afetuoso. Senti daqui um pouquinho da dor.

Em primeiro lugar, acho válido destacar a importância desse desabafo. Dar-se conta do que se sente e expressar isso não é tarefa fácil, mas fundamental para começar a curar a dor.

Dito isso, gostaria de refletir um pouquinho sobre a culpa materna. De onde vem? Porque somos atormentadas por ela o tempo todo? Acredito que abrimos espaço para a culpa quando não temos clareza exata dos caminhos que percorremos e do quanto nos empenhamos para viver aquela maternidade, que pode não ser a ideal, mas foi/é a possível de ser vivida num determinado contexto.

Sobre a via de nascimento por exemplo. A forma ideal de parir é por parto normal (leia-se parto vaginal com o mínimo de intervenções possíveis, onde a mulher tem liberdade para parir e é respeitada como protagonista do processo). Os benefícios são maiores e os riscos menores para a mãe e para o bebê. Não vou me ater a eles porque uma pesquisa rápida na internet te dará uma lista. Mas existem sim casos em que essa via de nascimento não é possível. Não são a maioria, mas em torno de 15, em cada 100 mulheres, terão uma indicação real de cesariana e, nesses casos, a cesariana é uma bênção, uma conquista da ciência médica que salva vidas e deve ser celebrada com a mesma euforia de um parto normal.

O que o ativismo pelo parto humanizado condena não são as mulheres que passam por uma cesariana, mas as inúmeras cesáreas feitas em nosso país sem indicação real. Infelizmente muitos obstetras não trabalham a partir de evidências científicas e indicam cesarianas por motivos que não procedem. Nesses casos, não há o que se comemorar em relação à via de nascimento. E essa é uma realidade cruel, especialmente no sistema privado de saúde, onde os índices chegam a 90% de cesarianas. Boa parte dessas mulheres desejou viver um parto normal e tinha condições de saúde para tanto, mas isso foi negado a elas. É contra isso que lutamos.

Se as suas cesarianas tiveram indicações reais ou não, é uma pergunta que cabe apenas a você se fazer, se houver interesse e disposição para encontrar as respostas. Não cabe a mais ninguém levantar esse tipo de indagação porque o caminho para essa descoberta pode ser tão ou mais doloroso do que a frustração por não ter vivido o parto desejado.

O mesmo raciocínio serve para a amamentação. A fórmula existe para os casos em que o aleitamento materno exclusivo não é possível. São poucos, mas existem. Só que o que vemos o tempo todo são prescrições médicas de suplementação por fórmula sem justificativa. Conheço inúmeras mães que já saem da maternidade com a prescrição do leite em pó. Outras tantas que, porque o bebê não ganhava peso na média da curva, foram impelidas a suplementar, desconsiderando-se que cada bebê tem um biotipo e que, engordar abaixo da média, mas dentro da curva, também é saudável. Outras mais tantas que sucumbiram à pressão dos familiares, que atribuem todo e qualquer choro infantil à qualidade do leite materno, depreciando-o como algo sem valor nutritivo. São essas situações que precisam ser esclarecidas e combatidas.

Mesmo que não exista uma indicação real de complementação, a mãe brasileira precisará de muita informação e apoio para conseguir amamentar. É por isso que comemoramos quando conseguimos, porque não é fácil remar contra essa correnteza.

Por fim, não dá pra viver agarrada a essa maternidade ideal, porque a única que podemos viver é a maternidade possível. Se ela se parecer um pouco com o que tínhamos projetado, comemoremos. Se não se parecer em nada, tenhamos clareza de que demos o melhor de nós e que, essa maternidade possível, é a melhor que podemos experimentar.

Nunca se sinta culpada ou inferiorizada por sua forma de maternar. Informe-se sempre, esteja aberta a mudanças quando perceber que elas são necessárias, busque apoio, comemore as conquistas de outras mães e viva a sua maternidade com leveza, oferecendo aos seus filhos com o que você tem de melhor: seu amor.

Um beijo grande e um desejo de que as mulheres se apoiem cada vez mais, pois não competimos por um podium, mas nos empenhamos em criar nossos filhos da melhor maneira possível a cada uma de nós!

sisters in pregnancy - ACEO 03-10-2013

Sisters in pregnancy – ACEO 03-10-2013 – Gioia Albano – facebook.com/AlbanoGioiaArt

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