Mudança – uma descoberta sobre acolhimento

Faltam 17 dias para 2 aninhos e esse é um dos textos a que mais recorro quando as coisas parecem estar desandando por aqui.

Há dias bem difíceis em relação à educação de Filipe, mas percebo que em todos eles, um de nós está visivelmente cansado. Ou os adultos cuidadores com suas preocupações de trabalho, ou o próprio Filipe, por alguma alteração na rotina.

Desenvolver uma atitude acolhedora nesses momentos me parece um dos grandes desafios da maternidade. Não é uma prática automática. Eu preciso me lembrar disso várias vezes para conseguir manter meus impulsos violentos contidos, mas o resultado é sempre muito melhor do que prevejo.

Seguiremos rumo a mais um ano de aperfeiçoamento nosso, enquanto adultos, e do Filipe, enquanto indivíduo em desenvolvimento que aprenderá a não descontar suas dificuldades e frustrações naqueles a quem ama.

Publicado no Facebook em 06 de fevereiro de 2015

“Essa tem sido uma semana atípica: viajamos no final de semana, começamos uma mudança, tivemos vários contratempos na execução dela e estamos no meio do caos das caixas espalhadas por todo lado.

Nós, adultos, estamos extremamente cansados, exauridos e ansiosos pra ver tudo guardado em seu devido lugar pra podermos suspirar dizendo “lar, doce lar”!

Mas e Filipe? Bem, no meio dessa confusão, o bichinho tá totalmente desnorteado. Voltou cansado da viagem e da alteração de rotina e se impressionou demais com os móveis desmontados e as coisas nas caixas. O tempo todo nos chamava pra ver o que tava fora do lugar no apartamento antigo e dizia “tirou” mostrando a mãozinha como quem pergunta: “porque, pra onde foi”?

mudança

Agora ele está no meio da confusão das caixas e da falta de referência do seu espaço. Não sabe mais onde é seu quarto, onde se escova os dentes, onde guardamos os potes e as panelas que ele tanto ama. Passa o dia vendo todos agitados, andando de um lado pra outro, abrindo caixas, tirando coisas, dando ordens, cansados.

O resultado disso tudo é um estado emocional diferente: grudou em mim e, na minha ausência, no avô. Não permite que ninguém se aproxime, chora um choro sem lágrimas por qualquer coisa ou até mesmo sem motivo aparente, “faz birra”, não atende, enfim, tá difícil.

Durante toda a semana experimentei impulsos estranhos de agir com violência face à esse comportamento e confesso que, se não tivesse tanta segurança de que uma educação empática e consciente é o melhor caminho, teria dado umas palmadas ou sacudidas nele por mais de uma vez.

Mas ainda bem que não fiz. Não fiz porque procuro entender a razão por trás desse comportamento e vejo ali um menino perdido, retirado do seu ambiente, exposto à uma situação estressante para adultos (e porque não seria pra ele?), sem referência de ambiente, sem saber onde estão suas coisas que lhe são tão queridas e importantes. Não fiz porque quando vivo situações parecidas tudo o que desejo é que alguém me acolha, olhe nos meus olhos e me diga pra respirar fundo porque depois tudo se ajeita.

Ontem à noite, depois de um espetáculo de choro pra tomar banho, peguei-o no colo embaixo do chuveiro e sussurrei ao seu ouvido: “sei que você tá cansado meu amor, mas esse dia já acabou, vamos tomar banho e dormir”. Ali o choro sessou, ele deitou a cabeça no meu ombro molhado e fechou os olhos, exausto, debaixo da água quente.

É disso que todos nós precisamos nos momentos de crise,sejamos  grandes ou pequenos, de um banho e de um colo quentes.”

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