O sono dos bebês

O que há de errado com um bebê (seja de que idade for), que acorda algumas vezes durante a noite procurando pelo peito, ou pelo acalento da mãe? Porque será que alguns bebês dormem a noite toda desde bem novinhos e outros demoram para apresentar esse padrão de sono? Seria culpa da mãe, que mal acostumou o bebê a dormir somente ao peito ou embalado ou no colo?

Acredito piamente que, a habilidade de dormir, assim como tantas outras habilidades desenvolvidas pelo bebê em seus primeiros dois anos de vida, é uma construção individual. Cada bebê terá seu tempo próprio para aprender a dormir, sentar, engatinhar, andar, falar, comer, desfraldar, desmamar e tantas outras coisas. Enquanto uns andam aos nove meses, outros andarão aos 18 e não há nada, absolutamente nada de errado com esse que anda aos 18 meses. Bebês tem ritmos de desenvolvimento diferentes pelo simples fato de serem indivíduos e, como tais, apresentarem características que são apenas suas.

E porque com o o sono seria diferente? Há adultos que só dormem com televisão ligada, outros no completo silêncio. Uns dormem a noite toda, outros levantam na madrugada para tomar água e ir ao banheiro. A maioria precisa de 7 a 8 horas de sono para descansar, mas existem aqueles que com apenas 4 horas se restabelecem para um novo dia. E isso é normal e não existe uma preocupação para que todos tenham o mesmo padrão de sono simplesmente porque é impossível pessoas diferentes terem comportamentos idênticos!

Tenho pra mim que o que está errado não é o fato do bebê acordar algumas vezes durante a noite. O que está errado são as expectativas que a nossa sociedade criou em torno do assunto. Se você é mãe já ouviu frases do tipo: “meu bebê é tão bonzinho, dorme a noite toda desde os dois meses!” ou “eu tive muita sorte, meu bebê nunca deu trabalho pra dormir!” ou “meu filho nunca precisou de ninar pra dormir, ele sempre dormiu sozinho.

E o que acontece quando uma mãe cujo bebê acorda de 3 a 7 vezes por noite e não consegue dormir sozinho novamente ouve esse tipo de comentário? Por analogia, se o filho da outra é bonzinho, o meu é um carrasco. Se a outra é sortuda, eu sou uma azarada. Se ela nunca precisou embalar, eu estou fazendo alguma coisa errada! E assim passamos a olhar para o sono do nosso bebê como se houvesse um problema a ser resolvido e buscamos soluções para o caso nem sempre tão benéficas.

Técnicas de treinamento do sono baseadas em deixar chorar são comprovadamente prejudiciais para a saúde emocional do bebê. Nessas crises de choro a produção de cortisol, o hormônio do estresse, atinge níveis altíssimos e um dos mecanismos de redução deste é o contato com o cuidador que ajuda o bebê a produzir ocitocina, o hormônio do amor. Sem o acalento do adulto o bebê volta a dormir sozinho, mas não porque aprendeu a dormir, mas por estar exausto.

Existem outras técnicas de remoção gentil da mama ou de desmame noturno, que não são baseadas no abandono, mas mantém o acolhimento. Mas tais técnicas são indicadas para bebês maiores de 18 meses, que já possuem maturidade emocional para serem confortados sem o estímulo da mama. Lembrando que não existe nada métrico quando tratamos de pessoas. Alguns bebês estarão prontos um pouco antes dos 18 meses e outros um tanto depois.

Uma solução encontrada por muitas mães para sobreviver à privação de sono gerada por essas demandas noturnas é a adoção da cama compartilhada. Trazendo o bebê para perto de si, a mãe o acalenta ou amamenta enquanto cochila. Não é a mesma coisa de dormir uma noite toda, mas é menos pesado que se levantar por várias vezes e ir a outro cômodo da casa. Lembrando que cama compartilhada não é necessariamente o bebê dormindo na mesma cama com os pais. Pode ser um berço com a grade abaixada acoplado à cama, um colchão no chão com o colchão do bebê ao lado ou o bebê na mesma cama dos pais. O que vale nessa escolha é a organização que melhor se adequa às necessidades e possibilidades daquela família.

Sofrer pelas comparações ou pela pressão da sociedade só tornará esse caminho de aprendizagem mais desgastante. Diminuir as expectativas, encontrar adaptações que diminuam o cansaço e lembrar-se sempre de que tudo passa são as melhores sugestões que eu, como mãe de um bebê/menino que agora, aos 24 meses, está começando a dormir algumas noites inteiras posso dar.

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O caminho até aqui foi longo e muitas vezes pesado. Filipe mamou de 5 a 7 vezes por noite dos 5 aos 18 meses. Trabalhar no dia seguinte era sempre um desafio, mas passou. Aos 18 meses deixou de procurar o peito, mas não de acordar. Bebia água e com um carinho adormecia de novo. Aos 21 meses, depois de um internação longa o padrão de sono voltou ao que era, com várias mamadas noturnas novamente. Agora, prestes a completar 24 meses, as coisas estão tomando novo contorno. Ciclos de sono mais longos, sem a necessidade do peito para conectá-los, sem choro, sem pressão e sem estresse.

E eu continuo seguindo como guia, devagar, no passo dos meninos…

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5 comentários sobre “O sono dos bebês

  1. A minha Elis tem 20 meses recém completados e ainda acorda de duas a três veze por noite pra buscar o calor da mamãe aqui. Ela não mama mais (não quis mais o pepê no 13° mês), mas tem necessidade de aconchego e companhia quando se descobre só no despertar de madrugada. Não fazemos mais cama compartilhada. Agora eu tenho uma bicama no quarto dela e me mudo pra lá quando sou solicitada. Ouço muitas críticas por causa desse padrão de sono “mas como não dorme ainda uma noite inteira? Deixa ela chorando!”. Te confesso, eu já tentei deixar chorando… e meu coração doeu tanto que prometi que não permitiria jamais aquele sofrimento outra vez. Somente depois que eu aceitei que ela está aprendendo a dormir, que ela precisa da minha ajuda também nesse processo, acordar diversas vezes a noite deixou de ser uma chateação. Tenho certeza que juntas chegaremos às 8h seguidas de sono. Algum dia…
    Bjs

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    • Que lindo relato Natália. É por aí que caminho também. Enquanto minha presença for necessária, ela será oferecida, de coração aberto. É o lema que me inspirou a escrever esse blog, servir de guia, caminhando devagar, no Passo dos meninos!

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  2. Tenho achado os posts muito bons e tem me ensinado bastante. Alguns
    assuntos e procedimentos que não achava “correto” estão começando a se encaixar e ter sentido (não totalmente) pra mim.
    Tenho uma grande dúvida,
    o bebê dormir na mesma cama que o casal é prejudicial para o relacionamento?
    Tenho tido em minha mente sempre o pensamento de que quando o meu bebê chegar deve dormir no proprio quarto, mesmo que eu tenha que passar boa parte da noite lá ou tenha que levantar várias vezes, pois acredito que temos que ter a privadidade do casal. Mas com algu mas questões levantadas fiquei em dúvida.

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    • Oi Alexandra, que legal receber seu retorno.
      A cama compartilhada e a intimidade do casal são um dos grandes tabus da maternidade.
      Primeiro começo te dizendo que adotar a cama compartilhada deve ser uma decisão do casal, tomada em conjunto. Não serve um só bancar e o outro brecar.
      Te digo que, em qualquer relação normal, a chegada dos filhos muda a dinâmica sexual (e acho que é isso que vc quer dizer quando fala em relacionamento) não pelo lugar onde essas crianças dormem, mas pela própria alteração da rotina, das demandas e do cansaço!
      Desconheço quem tenha mantido o mesmo pique!
      Sobre a pergunta em si, não acho que atrapalhe. Não existe só a cama do casal para esse tipo de intimidade e nem o bebê precisa estar ali a noite inteira.
      Há casais que começam a noite com o bebê em seu quarto e, na primeira acordada, o bebê vai pra cama.
      E se pensar bem, seu planejamento de passar boa parte da noite no quarto do bebê afetará a relação tanto quanto, percebe?
      Optar pela cama compartilhada é uma questão de entender o que será melhor para aquela família, naquele contexto, com as características específicas de cada integrante.
      Hoje, com um bebê imaginário, pode parecer fácil levantar várias vezes por noite, mas se a sua realidade for de 5 a 7 vezes por noite, com mamadas que duram de 30 a 60 minutos, isso pode não ser tão viável…

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