Voternidade

Acho que esse post deveria ser escrito por eles. A proposta até existe, uma vez que o vovô Salviano escreve textos belíssimos, mas a rotina intensa com o netinho parece estar sugando toda energia dele, não sobrando muito tempo para esses registros.

Como hoje é dia dos avós, decidi escrever por eles, mas deixo a porta aberta para acrescentarem seus sentimentos em relação ao tema.

Em Julho de 2013, desembarcaram em Salvador/BA meus pais Salviano e Solange. Até então, o status deles era esse: pais de Otávio e Ívina. Penso que nenhum de nós tinha ideia do que estava por vir.

Não tinham data pra voltar pra Minas. A proposta era vir para o nascimento do primeiro neto e ficar por um tempo me ajudando nos primeiros meses, que seriam bem puxados.

Depois de 8 anos morando longe deles, estar tão próximo era uma experiência quase nova. Tínhamos apenas dois combinados. O primeiro foi proposto por mim. Precisava de ajuda para cuidar da casa, da roupa e da comida para que pudesse me dedicar ao bebê integralmente. Verbalizar isso foi muito difícil. Tive medo de soar ofensiva, mas receio de não me posicionar antes do bebê nascer e depois não encontrar mais espaço para tanto.

O segundo foi apresentado por eles. Ficariam enquanto se sentissem à vontade para ficar. Sem prazo, sem compromisso de data e sem amarras. Ideia aceita de bom grado. Gostava de tê-los perto, mas volta e meia projetava como seria quando resolvessem partir.

E assim seguimos, por um, dois, três meses… a licença maternidade findando e aquele ponto de interrogação na minha cabeça do que faria se eles estivessem pensando em ir. O fato é que não foram. Não foram no final do primeiro mês, nem do primeiro trimestre, nem do primeiro ano, nem do segundo. Foram ficando, gostando, curtindo e criando com Filipe um laço de amor e afeto inexplicável.

E de mim? De mim receberam e receberão sempre toda a reverência que posso demonstrar.O respeito com que acolheram todas as colocações em relação à minhas escolhas de maternagem foi surpreendente. Sabe aquela história de que avô e avó estragam neto?  Aqui isso nunca existiu. Em nenhum episódio passaram por cima do que eu ponderava em relação a Filipe. E eu não fiz as escolhas mais comuns e fáceis de aceitar. Optei:

  • por um parto domiciliar, levando-os a enfrentar os medos e mitos que nossa sociedade criou em torno desse tipo de parto;
  • por aleitamento materno exclusivo, sem nem uma gotinha de água até o sexto mês;
  • por não oferecer chupeta, mas oferecer colo, não apenas o meu, mas o deles também;
  • por não dar meu leite em mamadeira quando voltei a trabalhar, levando-os a aprender a ofertar o leite em copinho;
  • por não ter berço e deixar o bebê solto pela casa, mas sempre com a supervisão de um dos dois;
  • por uma introdução alimentar completamente diferente do que eles conheciam (BLW) e, por isso mesmo, desafiadora;
  • por permitir que Filipe comesse sozinho, produzindo uma bagunça sem nome a cada refeição;
  • por uma dieta sem sal nos primeiros 12 anos, levando minha mãe a fazer a comida dele separada;
  • por uma dieta sem açúcar e sem industrializados, privando deles a oferta de guloseimas tão característica dos avós;
  • por uma disciplina empática e positiva, apresentando a todos nós o desafio de educar sem bater;
  • por não escolarizar Filipe tão cedo, deixando para eles a responsabilidade de cuidadores;
  • por ter um segundo filho quando o primeiro estivesse completando dois anos, demandando mais ainda deles.

Enfim, praticamente todas as minhas escolhas de maternagem envolveram os dois de maneira direta, desafiando-os a abrir mão de suas crenças para abraçar novas formas e possibilidades de se educar. E essa é uma tarefa dificílima pois, a princípio, ser convidado a fazer diferente pode parecer uma contestação à forma e aos resultados das escolhas que eles fizeram quando foram meus pais. Exige deles e de qualquer avô que se disponha a viver a voternidade de maneira consciente e respeitosa, uma capacidade de separar essas duas coisas tão interligadas.

Eu me considero uma pessoa muito bem educada, sem falsa modéstia. O trabalho deles foi bem sucedido. Todo esforço que empreenderam para formar a mim e a meu irmão valeu a pena. Nos sentimos seguros e preparados para viver nossas vidas de maneira autônoma e, acima de tudo, amados. Mas isso não significa que a forma como nos criaram seja a única correta. Porque não existe fórmula correta, existem escolhas, baseadas em princípios, valores, no contexto daquela família, nas possibilidades dos pais, nas informações a que se tem acesso, nas redes de apoio que se formam. E eu, cada vez mais acredito no ditado africano de que, “é preciso uma aldeia inteira para se educar uma criança” e contar com o apoio e a validação dos meus pais nessa missão é um privilégio, uma bênção, uma dádiva.

Eternamente grata a vocês, que me ensinam não apenas a ser mãe, mas moldam, desde já, a avó que serei um dia.

Feliz dias dos avós!

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O primeiro olhar e a primeira bênção

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Parceria de sonecas com o vovô

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e com a vovó também

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e amor foi crescendo junto com o menino

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tornando os cenários já tão belos ainda mais especiais

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criando laços e abrindo sorrisos

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às vezes mais lindos nos avós do que no próprio netinho

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e estou certa de que Filipe sempre saberá reconhecer!

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4 comentários sobre “Voternidade

  1. Ola fico maravilhada com tantas maravilhas vividas e compartilhadas, eu tenho 28 anos ainda não sou mãe, mas sonho com esse dia rs nem casada sou ainda por isso não sei se um dia terei essa benção de ser mãe. Em fim so passei mesmo para parabenizá -la por tantas coisas lindas que vc tem vivido e por nos deixar a cada dia mais apaixonada ! Eu mais que nunca gostaria de poder ser mãe, tenho o desejo de poder ter essa alegria e viver esse amor que vc expressa com tanto carinho! Obg grande abraço!

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    • Que coisa boa ler sua mensagem Ana Paula. Feliz por poder te inspirar a desejar uma maternidade plena. Não é um mar de rosas, confesso. Há percalços, enormes desafios e uma carga de trabalho bem grande, mas tudo isso fica pequeno se escolhermos focar no que a maternidade pode nos trazer de bom: amor de um tipo nunca antes experimentado, alegria sem medidas, transformação pessoal, consciência de valores e crescimento, muito crescimento!
      Que sua hora chegue e vc possa desfrutar de td no passo dos seus meninos (as)

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  2. Que texto emocionante!!!!
    É incrível como consegue expressar os sentimentos vividos, sempre fico impressionada com a sua boa escrita, mas a alegria que transmite ao escrever sobre a maternidade me impressiona muito mais, porque é algo nos mostra ser difícil/desafiante e ao mesmo tempo bastante prazeroso.
    Que Deus abençoe você e sua família muitíssimo!
    Que continue ajudando outras mulheres a acreditarem que a maternidade humanizada é possível, é real!

    P.S: Não sou casada e nem mãe, tenho 21 anos mas simplesmente amo seu blog e ainda compartilho o que tenho aprendido com minhas amigas que já são mamães.

    Obrigada por compartilhar suas experiências com outras mulheres, sejam elas novas mamães, velhas mamães e até aquelas que não são mães (como eu rsrsrs).

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    • Obrigada Yslla!!! Escrever tem sido uma forma de reafirmar aquilo em que acredito. Acho que, em boa parte dos textos, reafirmo pra mim mesma na intenção de não me esquecer dos princípios que escolhi pra reger minha maternagem.
      Não, não é nada fácil e as tentações pra passar o carro à frente dos bois ou usar métodos que repudio são enormes e constantes.
      Talvez por isso os últimos dois anos tenham sido tão transformadores.
      Feliz por vc estar acompanhando e partilhando esses pensamentos. 🙂

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