O irmão mais velho e a segunda esposa

Desde que João nasceu muita gente me pergunta qual foi a reação do Filipe à chegada do irmão.

Até agora não consegui escrever sobre isso porque a sensação que tenho é a de que estou no olho do furacão e preciso focar em sobreviver a ele com o menor dano possível.

Sim, sobreviver. Talvez seja essa a expressão que melhor defina o momento. Sobreviver à transformação do Filipe e tentar acolher a avalanche de sentimentos que rolaram montanha abaixo desde que João chegou.

Parece alarmista, não é? Mas é o que sinto. Apesar de ter tentado preparar Filipe para a chegada de um bebê com livros e histórias, eu talvez tenha sido idealista além da conta (veja em Gestando um irmão mais velho). Nunca fui irmã mais velha e não tinha ideia de como seria pra ele.

Hoje, tentando achar uma maneira de explicar o que imagino que se passa na cabeça de uma criança que ganha um irmão, acho que cheguei à parábola ideal.

Coloque-se dentro da seguinte situação e, se você for homem, inverta os papeis.

Você é casada, muito bem casada e sua relação vai de vento em popa. Um belo dia seu marido chega em casa com uma mulher mais nova, linda, encantadora (porque bebês são encantadores).

Ele, educadamente a apresenta:

– Meu bem, essa é fulana, minha nova esposa. Nosso casamento é tão bom que resolvi me casar com mais uma mulher. A partir de hoje ela vai morar aqui com a gente, vai dormir na nossa cama conosco e desfrutar de todo amor que essa família pode oferecer. Sim, porque você também deve amá-la e acolhe-la com carinho.

Se por ventura eu estiver em um momento de intimidade com ela, não fique impaciente. É só aguardar a sua vez. Mas não se preocupe. Meu amor por você continua o mesmo. Você será sempre a primeira esposa. A diferença é que agora seremos uma família maior!

Ah, já ia me esquecendo. Nesses primeiros três meses você precisará ser um pouco paciente pois estaremos em lua de mel.

Como se não bastasse, essa primeira esposa ainda terá que lidar com as festas que parentes e amigos farão pela chegada na nova esposa, com todos se derretendo em elogios e a enchendo de mimos na sua presença.

E aí, seu sangue ferveu? Como você reagiria a essa mudança? Que tipo de questionamentos se faria?

Porque ele quis outra mulher? Será que eu não bastava? Como ele pode dividir com outra tudo que era tão nosso?

Ainda que uma mulher aceite se submeter a uma relação dessas, o que seria raro numa sociedade monogâmica como a nossa, as reações esperadas seriam de irritabilidade, violência verbal e talvez até física. Essa mulher estaria em frangalhos e ainda tendo que lidar com a expectativa de que demonstre amor pela outra esposa ou com a recriminação por manifestar seu descontentamento.

Veja bem, tal mulher teria a opção de sair desse relacionamento a qualquer momento sem ser julgada como ciumenta ou incompreensiva.

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E o irmão mais velho? A situação é a mesma. Na ótica dele, é tão absurdo quanto a poligamia a ideia de que seus pais tenham decidido ter outro filho e dividir com ele tudo o que era apenas seu. Mas diferente da esposa da parábola, é esperado que essa criança receba o irmão com amor, sem ciúmes e sem qualquer manifestação de descontentamento com o agravante de que ela, ainda que não goste da nova configuração, não poderá sair de casa.

É assim que vejo a vida de Filipe nos últimos dois meses. A segunda esposa está aqui, é fato. Ela faz parte da família e não há perspectiva de que vá embora. O mínimo que podemos fazer por Filipe é ser mais compreensivos e acolher suas manifestações de raiva, descontentamento e insegurança, sem colocar sobre ele o peso da cobrança ou da culpa por sentir o que está sentindo.

Como estamos fazendo? Isso é assunto pra outro post porque o processo está em constante construção. Por enquanto sigo agarrada à uma educação não-violenta e respeitosa como quem se agarra com toda força à uma árvore durante a passagem de um furacão. E sempre repetindo: vai passar, vai passar. Sempre passa!

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3 comentários sobre “O irmão mais velho e a segunda esposa

  1. Poxa, Ívina! Que situação! Pelo menos eles podem estabelecer uma relação de amizade e cumplicidade, depois que tudo estiver mais estabelecido (e eles mais maduros), pois afinal eles são filhos dos mesmos pais – relação totalmente diferente de marido e esposa.
    Desejo sucesso e acompanho o processo pra ver se consigo alguma dica, já que breve lá em casa também vai ter lua de mel com a segunda esposa…
    Bjs

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  2. Texto brilhante! Que maneira maravilhosa de colocar os adultos pensando sob a ótica das crianças! Pode ter certeza de que vou usar essa história muitas vezes ao longo da vida, sempre a serviço do entendimento e da harmonia familiar! 😘😘😘

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