Não os deixe chorando, mas permita que chorem

Quando Filipe nasceu eu achava que era minha responsabilidade fazer com que não chorasse ou, pelo menos, não por muito tempo.

No primeiro mês descobri que isso era impossível uma vez que o choro é uma das principais formas de um bebê se comunicar e que mãe nenhuma no mundo consegue decifrar todos os choros do filho. Essa é mais uma das mentiras da maternidade ideal, em que colo de mãe é remédio e que ela tem super-poderes pra acalmar um bebê em prantos.

Acho que acertamos por uma questão de probabilidade e não por competência no assunto.
Bebê chora, você checa as fraldas, vê se tá com calor ou com frio, oferece o peito, nina, balança, dá banho, caminha pela casa, corre, ora, chora junto. Por fim, uma dessas coisas dá certo ou, simplesmente, o que tinha que ser chorado o foi e eles se acalmam.

Quando percebi essa verdade, depois de checar tudo o que era possível ser checado, eu apenas abraçava e embalava Filipe sussurrando ao seu ouvido: “eu não sei o que você precisa, mas estou aqui e vamos ficar juntos até passar.” Repetia isso inúmeras vezes e nem sei bem se falava pra ele ou pra mim mesma. O fato é que eu me acalmava e, estando calma, a tendência era de que ele também se acalmasse.

Sou contra deixar o bebê chorando desamparado para que “aprenda” ou “se acostume”. Não consigo entender essa maneira rude de nos relacionarmos com eles. Como bem disse o pediatra espanhol Carlos González, quando qualquer pessoa a quem amo chora ao meu lado eu me preocupo em acolhê-la, porque seria diferente com uma criança?

birra

Mas à medida em que Filipe foi crescendo e desenvolvendo a fala, eu fui me esquecendo dessa premissa e passei a interpelá-lo sempre que chorava: – “pra que tá chorando?”, “precisa chorar por causa disso?”, “pare de chorar!”, “você sabe falar, não precisa chorar pra ter as coisas!”.

Fazia isso julgando que o choro, nesse momento, não tinha função comunicativa, mas foi engano meu. Na véspera de Natal ou de Ano Novo, não me lembro, o próprio Filipe me ensinou.

João estava mamando e Filipe queria mamar. Expliquei que era preciso esperar o irmão acabar e que ele mamaria na sequência. Isso desencadeou um espetáculo daqueles de choro, gritos e menino se jogando no chão. Repeti as mesmas perguntas acima em tom de desagravo. Ele parou de chorar e foi pra cozinha onde começou a pegar todos os ingredientes que estavam separados para o preparo do jantar e jogar no chão. Contido pelo pai voltou onde eu estava e suspirando me disse:

-“eu tá estragando tudo que você picisa pra fazer comida”.

Eita, a ficha caiu na hora! Me senti uma meleca e percebi o tamanho do erro. Mudei o tom de voz e comecei a explicar:

– Você está chateado porque quer mamar e tem que esperar o João terminar, não é? – ele meneou a cabeça afirmando – Sei que é difícil esperar e muitas vezes isso chateia a gente. Sabe, quando ficamos chateados a gente pode chorar, pode ficar quieto num canto, pode querer ficar calado sem conversar com ninguém, mas quando estamos chateados não podemos destruir ou estragar as coisas das outras pessoas ou as nossas coisas. Também não podemos machucar ninguém. A mamãe também fica chateada, o papai, o vovô e a vovó também ficam. Nós choramos, mas não destruímos nada. Entendeu?

Foi uma conversa milagrosa! Ele mudou o olhar, esperou um pouco mais e finalmente mamou. E, para mim, ficou o alerta: não os deixe chorando, mas permita que chorem porque nós também choramos e porque chorar é necessário para lidar com grandes sentimentos.

Choramos de tristeza, de alegria, de frustração, de dor. Choramos quando algo nos emociona ou nos choca. Choramos quando perdemos algo ou alguém. Chorar alivia, lava, põe pra fora aquilo que a alma não comporta e que as palavras não expressam. E não existe melhor sensação no mundo do que estar chorando e receber um abraço afetuoso, sem questionamento pelos motivos do choro, apenas dizendo pelo toque: “estou aqui, não importa o que seja, não sei o que fazer para te ajudar, mas estou aqui e ficaremos juntos até passar.”

 

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