Desmame noturno

Eu inaugurei esse blog com o relato de desmame noturno natural de Filipe aos 18 meses (se não leu clique aqui), mas a maternidade tem me ensinado que o que eu enxergo como um ponto final pode, muitas vezes, ser um ponto e vírgula!

filipe dormindoAos 18 meses Filipe parou de mamar à noite, mas aos 20, durante de uma longa internação pra tratar uma pneumonia, a mamação noturna recomeçou. Ele voltou a mamar no hospital pois acordava ao ser medicado e continuou assim por uns dois meses.

Encarei retomar as acordadas à noite com leveza por imaginar que ele estava se recuperando do período difícil no hospital e ele desmamou naturalmente mais uma vez aos 22 meses.

Aí nasceu João e meu caldo desandou. Filipe plugou no peito novamente, inclusive à noite. O primeiro mês foi insano. Chegava a amamentar 10 vezes numa noite. Era uma espécie de revezamento, com direito a sinfonia de choro quando um acordava antes do outro terminar.

Pensava em dormir durante o dia para aguentar o tranco, mas as sonecas dos meninos nem sempre coincidiam e eu fui ficando mais que zumbi.

Migrei com João pro sofá da sala e dormia com ele sobre a minha barriga. Imaginava que estando um pouco longe Filipe não me procuraria, mas às 3 da manhã lá estava ele ao lado do sofá sussurrando :”o Pipe qué umo mamazinho”.

Depois de 2 meses e meio voltei pra cama. A coluna agradeceu, mas as mamadas não diminuíam e, beirando os 4 meses de João eu cheguei ao meu limite.

E sabe, sempre me pareceu muito fácil julgar mães que diziam ter chegado aos seus limites quando eu olhava só para a criança. Acontece que, para a criança estar bem, é preciso uma mãe sã e cada uma sabe o tamanho da sua resistência. Eu já tinha ultrapassado a minha há meses e precisava me respeitar nesse processo também.

No fim de dezembro decidi conduzir um desmame noturno. Conversei com Filipe e expliquei que eu precisava descansar à noite ou não conseguiria brincar com ele no dia seguinte. Disse que ele já era um menino e conseguiria dormir novamente sem o mamá se acordasse de madrugada. Reforcei que o pai ou eu poderíamos ajudá-lo com carinhos, massagens e denguinhos. Combinamos que ele mamaria para adormecer e depois só quando o dia clareasse.

O discurso foi lindo. Ele acenou com a cabeça como se concordasse com tudo. Repetiu cada palavra e disse que só mamaria quando o dia “crareasse”. Haha! A primeira noite mostrou o tamanho do desafio: choro, muito choro. Gritos, menino esperneando e se batendo pela cama. Não aceitou que o pai se aproximasse e levou quase uma hora para adormecer novamente sem o peito.

E noite após noite a cena se repetia. Algumas com choro mais intenso, outras menos. Tivemos duas viroses com febre no percurso, mais alguns eventos de terror noturno. Tivemos pai pedindo arrego e implorando pra eu colocasse logo o peito na boca do menino. Tivemos menino em pé atrás da cortina desde as 4 da manhã esperando o dia “crarear”. Tivemos uma mãe exausta, mas igualmente determinada e tivemos um caçula com sono de pedra que, mesmo com toda a gritaria não se movia no cantinho da cama (Deus seja louvado por isso!!!!!!!!)

Sim, eu pensei em desistir, mas minha necessidade falou mais alto. Algumas coisas me motivaram a continuar:

  • Eu sabia das minhas razões e as considerava justas;
  • Eu precisava resolver isso antes do fim da licença maternidade pois seria humanamente impossível manter esse padrão e trabalhar no dia seguinte;
  • Ele já havia desmamado naturalmente por duas vezes e isso me dava segurança de que era capaz;
  • Eu não estava abandonando meu filho ou permitindo que sofresse desamparado;
  • Eu estava ali, o tempo todo, oferecendo outras formas de consolo e ensinando a ele que ele pode ter a mim sem necessariamente ter o peito.

Foram 18 noites no total. Depois dessas ele parou de chorar. Acorda, bebe água e adormece novamente. Às vezes me pede para abraçá-lo ou coçá-lo. Em alguns dias pergunta várias vezes se o dia já “crareou”, mas quando respondo que não ele volta a dormir. Em outros, mesmo eu dizendo que não ele vai conferir atrás da cortina.
Meu status atual é a cena do filme Cidade dos anjos, em que os anjos ficam na praia esperando o sol se por. Só que aqui tem gente que espera o sol nascer e, como moro no Nordeste, e ele nasce antes das 5 já viu né?

anjos e por do sol

Cidade dos anjos, 1998

A lição que tirei de todo o processo é que não educamos crianças tendo dó delas, mas com empatia, amor e firmeza, percorrendo com elas os trajetos mais difíceis.

Caminhar No passo dos meninos sempre, mas quem mostra o caminho somos nós.

4 comentários sobre “Desmame noturno

  1. Oi meu nome é Ana Paula, sou de Uberaba MG, tenho uma mocinha de 9 anos e um garotinho de 3 anos e 1 mês que ainda estou amamentando. Cheguei a este post pesquisando na internet sobre diarréia de criança rsrs; mas agradeço a Deus por sempre conduzir meus passos mesmo por caminhos que não entendo.
    Eu venho dizendo pra meu marido que quero tirar o peito do Davi pois há semanas que ando exaurida de tanto que o Davi mama.
    Ele ainda mama a noite e isso tem me destruído.
    Ao ler seu relato isso me abriu a mente pra fazer o desmame noturno.
    Desmamei minha filha aos e anos exatos dela é foi extremamente fácil da parte dela pois embora ela pedisse quando eu dizia que não daria mais pois faria mau pra ela já que tive de tomar remédio pra secar o leite e eu já não aguentava de dor no ombro e precisei tratar uma burcite.
    Já o Davi, aiai, rsrs, ele é dose, não aceita de maneira nenhuma ficar sem mamazim…
    Ele fala que meu peito é dele pra sempre e coisas do tipo.
    Mas agora vou tentar fazer assim como vc disse.
    Obrigada

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    • Oi Ana Paula!!
      Que legal uma leitora de Uberaba! Nasci aí pertinho, em Araxá ❤
      Feliz por saber que o post te ajudou a pensar caminhos para o desmame respeitoso.
      Amamentação prolongada precisa levar em conta não apenas a criança, mas a mãe tb e por vezes a gente se anula nessa equação.
      Sucesso pra vcs!
      Depois conte o resultado.

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  2. Me chamo Jamilli e cheguei no seu post anterior, sobre amamentação tandem! Estou grávida de 9semanas, meu bebê tem 13 meses, e mama muito. Tenho estado esgotada, só vômitos e mamadas. E estava ponderando deixar ele mamar até quando o bebê nascer, dividir o seio e tal. Mas, obrigada por dividir sua experiência, eu já não estou aguentando hoje. Estava até pensando que a diarréia fosse pelo leite, porque ele tem tido, e não mudou nada na alimentação, pensei que fosse hormônio no leite. Enfim, decidi estimular um “desmame natural”, para facilitar minha sanidade, porque tem noite que são bem puxadas, de tanto que ele mama, e aqui em casa, o marido ajuda, mas o grosso mesmo está me esperando para ser feito hahahah. Muito obrigada por compartilhar, assim posso conduzir esse momento de forma clara, sem culpas e romantismos, sabendo escolher o que é melhor para todos nós, respeitando meus limites para garantir que estarei bem para todos eles.

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    • Jamili, que bom que o post te ajudou a definir o que fazer. Amamentação em tandem é muito romantizada nos dias de hoje, mas a realidade é muito dura. Que Deus te abençoe no desmame e não tenha medo. Um desmame conduzido com amor e respeito não causa traumas. Muitas vezes só se fala da criança que “precisa” mamar até determinada idade e se esquece da mãe que precisa estar inteira para conseguir cuidar dessa criança. Eu conduzi o desmame dos meus três. Fiz por etapas, com carinho, mas com firmeza. Se não fosse conduzido, acho que tinha gente mamando até hoje 🙂 Eles hoje estão com 12, 10 e 4 anos e todo mundo bem resolvido. Sucesso pra você nessa missão!

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