O irmão mais velho e o eclipse solar

Vocês sabem que eu gosto de analogias né? Me ajudam a expressar com mais clareza o que sinto e a maneira como enxergo as coisas, especialmente em situações de tensão.

Quando João tinha uns quatro meses escrevi o texto O irmão mais velho e a segunda esposa, um dos mais acessados aqui no blog desde que comecei. Foram meses muito difíceis pra todos nós, mas as coisas se acalmaram um pouco e pareciam melhores a cada dia.

Aí João fez 6 meses. Começou a se arrastar pela casa, a interagir com todos, virou um bebê risonho, simpático e irresistível. E enquanto todos nos derretíamos por ele, algo estranho aconteceu: um eclipse solar, quase total! E a escuridão que ele causou… Ah, o escuro… como tememos a escuridão, a insegurança de não saber onde pisar, o medo de bater a cabeça em algum lugar…

eclipse solar

Filipe foi o sol da nossa família durante dois anos. Cheio de brilho, era o menino prodígio: comia bem, conversava lindamente, educado, amável, inteligente, acima da média, destaque da turminha, espírito de liderança e uma lista de qualidades que adorávamos ressaltar entre nós (pais e avós).

A chegada de João tem sido como um eclipse. A luz de Filipe virou sombra: raiva, ciúmes, maldade ao bater no irmão, inapetência, rebeldia, gritos. Aquele menino doce mostrou uma faceta amarga que nenhum de nós imaginava estar ali.

As primeiras demonstrações me desestruturaram e me abateram. Chorei.

Mas fui aos poucos, e com a ajuda de outras mães, percebendo que esse lado escuro nada mais é que a humanidade dele. Crianças são humanas, são falhas, contraditórias. Oscilam entre amor e ódio, paixão e repulsa como qualquer adulto. A diferença é que não sabem lidar com o que sentem. Procuram dar vazão a esses monstros internos e a agressividade costuma ser uma das válvulas de escape.

Certo sábado depois de bater em João várias vezes e ter um ataque de raiva no banheiro, Filipe disse soluçando nos meus braços. “Eu tá muito chateado porque eu não qué o João mais!

Dias depois, disse à minha mãe, olhando friamente nos olhos dela: “Vovó, eu não qué o João mais aqui. Tem levar ele lá em baixo, jogar no latão, o caminhão vem, coloca concreto em cima e o outro caminhão leva embora.

Na primeira vez o chão sumiu de debaixo dos meus pés. E aí, faz o que? Fala o que pra uma criança de dois anos e oito meses? Uma amiga me consolou dizendo: “Ívina, tá tudo bem. A gente que é mãe também não quer mais os meninos na hora da loucura. Desejamos que eles desapareçam, mas logo depois os queremos com toda força do mundo.

Mostrar pra Filipe que João não vai embora, mas que ele tem o direito de desejar que vá, de querer as coisas como eram antes quando ele era o centro de tudo; acolher esse sentimento e permitir que ele fale sobre isso; ensiná-lo que podemos sentir e falar sobre tudo, mas não podemos fazer tudo (como bater, por exemplo); deixar que ele extravase a raiva e chore o que precisa ser chorado (já escrevi sobre isso também em Não os deixe chorando, mas permita que chorem). Esse tem sido nosso caminho.

Confesso que contemplar a sombra é assustador pra quem, até então, só enxergava luz. Mas mesmo assustada, tenho achado o processo positivo. Reconhecer que ele é humano me permite aceitar também a minha humanidade: reconhecer minhas falhas, meus defeitos; acolher os sentimentos mais ambíguos que se manifestam dentro de mim; e, mais que isso, me permite reconhecer que preciso de Deus pra me ajudar, assim como Filipe precisa de mim.

Que esse eclipse dure o tempo que for preciso e, enquanto a lua não passa diante desse sol, me contento em vislumbrar a auréola brilhante que insiste em clarear minha visão, me lembrando que que o astro está ali, cheio de potência e que vai voltar a brilhar com toda sua força.

filipe e joão

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