Crianças, plantas e individualidade

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Na black friday do ano passado comprei um kit de vasos auto-irrigáveis. É um sistema de vasos para plantas com um reservatório de água vedado ligado à terra por um chumaço de barbante, uma espécie de raiz artificial. A proposta é manter as plantinhas hidratadas mesmo na ausência do cuidador.

20161210_132017Achei ótimo porque todas as minhas hortinhas de tempero morrem quando eu viajo e resolvi investir pra voltar a ter meus temperinhos frescos. Meu pai e Filipe se encarregaram de replantar as mudas compradas e, desde dezembro, observo minhas plantinhas diariamente.

A melhor palavra que encontro para definir o consumo de água das ditas cujas é ASSUSTADOR. São todas plantas, mas cada uma consome uma quantidade absurdamente distinta das outras. Manjericão e sálvia são as mais beberronas, enquanto alecrim e hortelã levam dias para esvaziar o reservatório.

Da mesma forma, cada uma tem um ritmo de crescimento e uma demanda por sol, mas são todas tempero!

Sabrina Jordão, uma querida amiga, me disse uma vez ter a sensação de que ter um filho era como ganhar uma plantinha de presente, mas uma plantinha desconhecida, sem nenhum papelzinho com dicas de cultivo, como as preferências daquele vegetal por água, umidade, sol, sombra, etc. E que a gente tinha que descobrir sozinho, tomando cuidado pra não matar a bendita.

E não é que ela tem razão? Toda manhã, enquanto tomo café da manhã e checo a quantidade de água nos reservatórios fico pensando nas nossas crianças.

Que loucura desse mundo massificar questões tão individuais como alimentação, sono, crescimento, ganho de peso, afeto entre outras tantas?

Como pode alguém lhe dizer que seu filho “tem que” ter horário pra mamar e que você não pode dar o peito em livre demanda porque assim o bebê vai crescer sem controle na alimentação?

Como pode alguém especificar a quantidade de comida que uma criança “tem que” comer quando inicia a introdução alimentar ou em qualquer fase de sua vida?

Como pode alguém determinar quando, onde e como seu filho “tem que” começar a dormir sozinho?

Como pode alguém dizer que seu filho “tem que” tomar complemento e que seu leite não é suficiente pelo fato dele não ter crescido na média da tabela, sendo que ele cresce no ritmo dele?

Como pode alguém dizer que seu filho “tem que” ir pra escola pra aprender a ficar longe de você?

Gente, como pode tanta gente ter tanta liberdade em dar tanto palpite na criação de uma criança que eles NÃO CONHECEM???????

Ninguém conhece o bebê que acaba de chegar ao mundo! Ele é a plantinha sem manual de cultivo. A única forma de saber suas preferências é oferecendo de tudo em abundância: peito, colo, aconchego, vínculo, afeto. E se tem uma pessoa que vai sentir as respostas dessa criança de maneira mais intensa, é A MÃE dele!!!!!

Então, por favor, aos agrônomos de plantão, deixem as mães regarem as crias! Apenas observem e se ofereçam pra ajudar no que elas sentirem necessidade! Excluam de suas frases qualquer coisa que comece com “tem que”! Entendam que as escolhas são daquela família e não dizem respeito a mais ninguém!

Cada criança é única. Filhos de mesmos pais são únicos! A planta não vem com manual porque não EXISTE manual! A criação é o processo de tentativa e erro mais alucinante da vida de uma família. A gente vai errar, é inevitável, mas garanto que estamos nos esforçando pra ter mais acertos.

E bora comer uma salada caprese com pesto feito do pezinho de manjericão, fresquinho, colhido pelas mãos do tempero mais incrível que já experimentei: Filipe, sob o olhar atento de seu irmão de sabor oposto, tão maravilhoso quanto: João. Oh vida cheia de sabor essa minha!

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2 comentários sobre “Crianças, plantas e individualidade

  1. Que lindo e que verdadeiro esse texto! Cheguei no seu blog buscando quantidade de comida para IA e achei esse texto! Achei um abraço e uma resposta pra vida! Obrigada!

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    • Bem vinda Larissa!!!
      Que bom ter vc aqui. O blog anda meio de lado com a correria do dia a dia trabalhando e com os meninos, mas por aqui vc verá um bocado de reflexões para além daquelas informações básicas que a gente procura na maternidade.
      Fique à vontade para contribuir, inclusive!

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